Entrevista com Tatiana Lazzarotto

Quantas lembranças atravessam um corpo enlutado? O que fazer com o desejo de nossos mortos? Em sua estreia, a escritora Tatiana Lazzarotto nos apresenta, em prosa poética, o desenrolar de uma notícia de morte. É também uma história sobre um pai, uma filha e uma árvore. Um deles está morto. Os outros dois terão de sobreviver. 

O romance “Quando as árvores morrem” (Editora Claraboia, 164 p.) acompanha o desenrolar de uma notícia de morte e as memórias que atravessam o corpo de quem fica. A obra foi uma das vencedoras do edital ProAC de obras de ficção, promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.

Na história, narrada em primeira pessoa, a protagonista perde o pai de forma repentina e retorna a Província – cidade fictícia –, para atender aos desejos deixados por ele: recuperar a casa da família e garantir que a velha árvore do quintal, já condenada, não seja derrubada.

Ao mesclar a experiência do luto com as memórias de infância, a narradora relembra a trajetória do pai, que deixou a profissão de comerciante quando ela e os irmãos eram crianças, para se transformar em Papai Noel profissional. O romance busca esmiuçar um personagem pouco visível na literatura, além de lançar um olhar sobre os milhares de homens que encarnam o personagem mítico no final do ano: de que maneira esses profissionais se relacionam na intimidade, com suas famílias? 

 

Além de honrar a memória do seu pai, grande incentivador da sua escrita, o livro tem como missão poder abraçar quem fica. “Especialmente num luto coletivo como este que vivemos, acredito que este abraço, que eu busco com o livro, não se estende apenas aos que perderam alguém. Mas a todos nós”, aponta Tatiana. “Também é um livro sobre pessoas que não cabem, pessoas que transbordam. As duas experiências se confundem. Perder alguém também é não caber.”

Confira a entrevista completa com a escritora Tatiana Lazzarotto:

 

  • Se você pudesse resumir os temas centrais do livro “Quando as árvores morrem”, quais seriam? Por que escolher esses temas?

    Luto, pertencimento e memória. Tenho um grande amigo que perdeu o pai, assim como eu, anos antes de mim. Ambos sofremos essa perda à distância e enfrentamos, cada um, uma longa viagem para nos despedir. Tivemos uma conversa honesta sobre os momentos cruciais do luto – ouvir a notícia pelo telefone, comprar a passagem, chegar ao velório. Falamos também sobre os dias seguintes aos dias seguintes. Sobre como sonhamos com os nossos pais e como são essas sensações. Como as lembranças se perdem e se reconstituem em novas perspectivas. Percebi que nunca tinha ouvido algo assim antes de perder uma pessoa próxima. E entendi que, depois da perda, nunca tive vontade de contar isso a alguém que não teve a vivência de órfão, especialmente os desgarrados, que não encontrarão outra vez uma casa depois do luto. Meu livro é esta conversa. Também é um livro sobre pessoas que não cabem, pessoas que transbordam. As duas experiências se confundem. Perder alguém também é não caber.

Qual a principal mensagem que você quis passar com a obra?


Não sei se posso falar em mensagem. Eu penso que o que eu mais queria com esse livro, além de honrar a memória do meu pai (grande incentivador da minha escrita), é poder abraçar quem fica. Especialmente num luto coletivo como este que vivemos, acredito que este abraço não se estende apenas aos que perderam alguém. Todos nós ficamos.


O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo de escrita?


Embora a ideia de escrever um romance sempre estivesse presente em algum lugar dos meus desejos, a premiação no edital ProAC de obras de ficção (promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo), em 2020, foi um enorme incentivo. Sempre pensei em apresentar uma ideia tão boa que pudesse ser validada e fomentada com recursos destinados à promoção da cultura. Queria escrever uma história que esmiuçasse um personagem pouco visível na literatura, lançando um olhar sobre os milhares de homens que encarnam esse personagem mítico de Papai Noel: de que maneira esses profissionais se relacionam na intimidade, com suas famílias?
Dentro do ProAC, que é um edital de longa duração, pude me dedicar à pesquisa e depois destinar um tempo à escrita. Nesta última etapa, no início, contei com o acompanhamento da escritora Laura Cohen, que me ajudou a entender para onde meu texto ia. Também recorri a amigas e leitoras betas, que foram bastante generosas em ler as primeiras versões. Embora o livro tenha sido escrito em um ano, praticamente, creio que é uma obra que vem sendo produzida há muito tempo. O desejo de criar uma personagem inspirada no meu próprio pai existe desde antes de eu perdê-lo. Trata-se de uma obra de ficção, com muitas memórias: emprestadas, ressignificadas e, sobretudo, ficcionalizadas.

Minha primeira grande influência foi o escritor Gabriel García Márquez e seu realismo fantástico, ainda durante a graduação em Letras. Depois, busquei me apoiar mais na escrita de mulheres, principalmente as contemporâneas. Conceição Evaristo e Rosa Montero são duas autoras marcantes para mim. Mais recentemente, creio que fui bastante impactada pela Elena Ferrante, especialmente sua tetralogia napolitana.

Em “Quando as árvores morrem”, você dedicou-se à pesquisa sobre o desenvolvimento e a inteligência das árvores, a fim de entender a dinâmica das florestas e como isso se mescla com o cotidiano de uma família. Poderia contar um pouco sobre esse processo?


As árvores sempre me fascinaram, desde muito criança. Confesso que herdei esse fascínio do meu próprio pai, que passou a se interessar quando nos mudamos para uma casa que tinha uma grande árvore no quintal. Dividimos, durante a vida dele, alguns insights e curiosidades sobre a dinâmica das florestas. Lembro-me de um documentário que assisti que comentava brevemente que a morte das árvores acontecia geralmente por obra do fogo, do vento ou pela ação humana, já os homens e mulheres eram mortos por inúmeras variáveis. Quando pensei em escrever um livro sobre a morte, na hora me veio à cabeça essa frase e quis relacionar mais dessas curiosidades no livro. Por isso, escolhi uma árvore como uma das personagens e decidi traçar paralelos no livro: árvores e humanos têm dinâmicas parecidas? Árvores têm uma inteligência própria, como a que temos? Elas funcionam em rede, em comunidade, como uma família? A partir daí, fui coletando informações e costurei-as ao enredo do luto, transformando em reflexões da própria personagem.

Você escreve desde quando? Como começou a escrever?

Sei que é comum ouvir de escritores que escrevem “desde sempre”, mas isso aconteceu mesmo comigo. Comecei a criar histórias desde que aprendi a escrever. Sempre li muito. Embora nunca tenhamos tido uma grande biblioteca de livros em casa, cresci rodeada de estímulos: gibis, revistas, jornais. Aos 9 anos, descobri a biblioteca municipal e começou a minha vida de leitora – e pretensa escritora – de livros. Na adolescência, desaguei a vontade de escrever trocando exaustivas cartas com as amigas, depois, já na faculdade, comecei a escrever crônicas em blogs. Mas acredito que a vontade de contar histórias veio da infância, dentro de casa: meu pai, que na época era viajante, e minha mãe, uma pernambucana radicada em Santa Catarina, me rechearam de causos, o que me deu consciência desde cedo de que havia outros mundos. Essas são minhas memórias mais antigas e ainda hoje elas atravessam qualquer coisa que eu escreva.

Você tem algum ritual de preparação para a escrita? Tem alguma meta diária de escrita?

Gosto de aproveitar a luz natural, então escrevo melhor durante o dia. Sinto-me mais atenta para revisar ou editar meus textos durante à noite. Então, procuro deixar o trabalho criativo para o período diurno e o acabamento para o noturno. Nem sempre escrevo todos os dias (a menos que eu esteja com um projeto em andamento – na reta final do livro, escrevi muitas horas por dia). De qualquer forma, gosto de estar sempre em estado de escrita, uma expressão que aprendi com a escritora Andrea Del Fuego. Mesmo que eu não esteja efetivamente escrevendo, quase tudo o que eu faço, vejo, leio ou assisto, funciona como uma referência ou uma etapa de construção para meus textos. Gosto de construir meus textos pensando que estou tecendo uma colcha, costurando as diferentes ideias que absorvi depois das minhas observações e estudos. Enxergo o texto como um tecido (o que vem da própria etimologia da palavra, ligada a tecer, entrelaçar), com seus pontos, linhas, tramas e fios da meada. Isso ajuda a tornar a atividade mais poética para mim, porque me vejo mais como artesã da palavra do que como alguém que está preenchendo páginas de forma mecânica. Tenho esse olhar até mesmo quando estou escrevendo rápido, desaguando ideias em ritmo acelerado.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação?

Brinco que minha procrastinação é ativa. Se eu tenho dificuldade em concluir um capítulo, geralmente é o dia que faço faxina, troco os vasos das plantas ou dou banho nos cachorros. Limpar a casa é um ciclo sem fim, sempre tem algo para fazer, então, é muito perigoso ir por esse caminho. Busco fazer um planejamento semanal para evitar que os projetos se percam. Durante a escrita do romance, escrevi textos diferentes em termos de linguagem e temática, o que me ajudou a destravar a escrita do livro. Eu também deixava “marinar” um capítulo que não conseguia concluir para escrever outros mais adiante. Essa escrita em não-linearidade me ajudou muito (o final do livro foi escrito durante a produção do segundo capítulo, por exemplo). Acredito que fazer terapia ajuda a identificar de onde vêm esses ciclos de procrastinação. Não tem melhor saída para isso do que o autoconhecimento, embora a resposta possa levar uma vida inteira para ser encontrada.

Quais são os seus projetos futuros na escrita? Planeja outro livro?

Meu projeto atual é terminar meu mestrado em Estudos Culturais, na Universidade de São Paulo (USP). Minha dissertação é sobre coletivos de mulheres escritoras e a importância desses espaços exclusivos para a produção literária de mulheres contemporâneas. Um segundo livro é um projeto, sim, embora eu só saiba dele o título. Espero que eu possa trabalhar nessa produção em breve.

Gosto de construir meus textos pensando que estou tecendo uma colcha, costurando as diferentes ideias que absorvi depois das minhas observações e estudos. Enxergo o texto como um tecido (o que vem da própria etimologia da palavra, ligada a tecer, entrelaçar), com seus pontos, linhas, tramas e fios da meada.

Tatiana Lazzarotto (@tatiana.lazzarotto) é escritora e jornalista. Nasceu em São Lourenço do Oeste (SC), em 1985, e é radicada em São Paulo desde 2011. Em 2020, foi premiada pelo edital ProAC com seu romance de estreia Quando as árvores morrem. Integra o Clube da Escrita para Mulheres, fundado pela escritora Jarid Arraes. Já publicou em revistas literárias como: gueto, Ruído Manifesto e Desvario. Formada em jornalismo e em letras-português pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro-PR), atualmente é mestranda em estudos culturais pela Universidade de São Paulo (USP), onde estuda coletivos de mulheres escritoras. É uma das organizadoras do livro Cartas de uma pandemia: Testemunhos de um ano de quarentena (Claraboia, 2021).

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