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Flor de arribaçã, um conto de Adriano Espíndola Santos

É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

Flor de Arribaçã

Amália, moçoila interiorana, depois de acirramentos com os irmãos e com o pai, resolveu tomar pé da vida e estudar, contando com o velado estímulo da mãe, dona Federalina, que, na surdina, para não contrariar o marido cioso, dizia que já bastava de mulher com as ventas pregadas no fogão; quebrar o ciclo danoso estava na ordem da vida.  

Então, decretou o seu destino, para além dos limites de Aracoiaba: “Quer queiram, quer não, vou avoar por esse mundão de meu Deus, pra ensinar as letras aos pequeninos!”.  

Mudando-se para Quixadá, a cidade mais moderna do sertão central, tornou-se professora do primário, com muito orgulho, e, de quebra, foi agraciada com uma reca de menino para tomar conta, assim declarava, risonha. E saía, todos os dias, para o encontro matinal com a turminha de crianças de oito anos; participava da acolhida, com a rígida proclamação do hino nacional e as rezas costumeiras, Ave Maria e Pai Nosso.  

Parecia uma mãe com os seus patinhos. Via-se partirem aquelas crianças serelepes, umas mais atrevidas que outras, mas sempre seguindo a alegre professora à bendita sala, no primeiro andar. Ao chegar, em sincronia proposital, tocava-se a Ave Maria de Schubert – era um colégio de irmãs da providência, católico –, ou, como ansiavam professora e crianças, as lindas canções de Padre Zezinho: Oração pela Família e Um certo Galileu. Para as duas, havia coreografias, que Amália fazia questão de repetir, para o delírio do público. E não eram coreografias quaisquer, e, sim, com gestos que podiam levá-la a subir a mesa e dançar, sapatear; ser, como de fato era, livre e feliz.  

Uma ou outra mais desconfiada poderia falar mal da professorinha, alegar que queria aparecer, ou ensinar absurdos às crianças, mas a sua intenção era pura, pois que vinha guardado no peito o desejo de que aprendessem o fundamental: o amor aos estudos.  

Supondo ser resistente, Amália ousou, sabe-se lá pela vigésima vez, subir a mesa para dançar e lecionar, à vista de todos. Não havia supervisão a essa hora; só após o recreio que as crianças eram acompanhadas pela coordenadora. Fechava-se a porta e era divertimento geral. O acordo era o seguinte: ninguém gritava ou falava alto, para não chamar a atenção da direção; e, em contrapartida, Amália inventaria coreografias e músicas para o ensino das disciplinas.  

Quando cantarolava “o ratinho, hum, teve dez filhinhos; formaram uma família, com a mãe, doze…”, estatelou-se no chão; e a queda foi tão grande que ficou desacordada. Luiza, a mais traquina, corria com a mão na boca, sem saber o que fazer, enquanto Edson, o filho de outra professora, queria sair da sala para chamar a sua mãe. Uma dúzia literalmente chorava e se lamentava: “A nossa professorinha… Será que ela morreu?”.  

Retiraram-se os dois, em direção ao banheiro, se esgueirando pelos corredores para não serem descobertos e repreendidos. Logo, o mais teimoso e intrometido, João Assis, também resolveu ir; disse que sabia de primeiros socorros, que seu pai era bombeiro; mas nunca teria visto sequer uma manobra respiratória; ou seja, queria mostrar serviço e se exibir como sabichão.  

Luiza perturbava-se, porque não encontrava saída, com as mãos na boca, já quase sem unhas de tanto roer. No banheiro, segundo Edson, era possível pegar água e, assim, despejar na cara da professora, que imediatamente acordaria, feito o piripaque do Chaves. A preocupação de Luiza, entretanto, era que a professora fosse descoberta em suas graças e, consequentemente, proibida de lhes ensinar – esse seria o grande mal.  

Juntaram-se à turma dos primeiros socorros Ana Laura e Dionísio, os consagrados inteligentes. A intenção deles era clara: dar notícia à enfermaria do colégio, no térreo, que, obviamente, teria mais preparo.  

Procurando formas de remediar, com o tempo esvaindo, chegaram exatamente os que não deviam; de quem menos necessitavam, Paulo e José, os metidos a valentões. Queriam colocar ordem: “O negócio aqui tá muito bagunçado!”. Agarraram Dionísio no canto e decretaram: “Se não achar uma saída, já sabe!”. Não se sabia nada. Não alcançavam o que fazer. Ansiavam, na verdade, medir forças.  

Dionísio, acuado, sugeriu chamar a Martinha, só a Martinha, a auxiliar de enfermagem, e contar o caso em segredo, sem estardalhaço. O papel de ir à enfermaria seria de Ana Laura, que não levantava nenhuma suspeita, já que recentemente ganhara uma medalha de melhor aluna da turma – numa disputa colossal com mais dois colegas, inclusive Dionísio; as tais competições modernas, que deixam crianças e adultos intranquilos.  

Martinha topou, com lágrimas nos olhos. Antes, pegou lenços de papel e, para que ninguém percebesse, enxugava constantemente o rosto. Lembraram que Martinha, apesar de doce, era nervosa e podia estourar no choro e ter um passamento. Ana Laura a acompanhava, seguida por Luiza e Edson, logo atrás, que faziam a guarda até chegar à sala.  

Quando conseguiram forçar a porta e abrir, a professorinha estava semiacordada, com o olhar vago, ostentando um corte que se estendia pela testa larga, numa proporção de, talvez, quatro centímetros – e ainda brotava sangue. Fernando, que ficou na sala, de tão apaixonado pela mestra, pôs a sua cabeça em suas pernas e, sem saber, ajudou a estancar o sangue. Entupiu, com a ajuda dos colegas, a cabeça de panos – o mutirão pegou as toalhas das lancheiras e formou uma aconchegante cama-ninho.  

Martinha, então, tomou a frente e reforçou a pressão na testa. Enquanto isso, pedia água à Luiza, e molharam, como em cascata, o rosto da convalescente professorinha. Deram-lhe, em seguida, um copo d’água com açúcar – soube-se, depois, que Ana Laura pediu na cantina, alegando que precisava tomá-lo com um remédio; os funcionários não estavam autorizados a negar nada à menina prodígio e promessa de sucesso do colégio.  

Não demorou e irmã Emília entrou, a diretora. Já não dissimulava a tranquilidade clássica; logicamente, exigindo, com voz grave, que todos tomassem os seus assentos. Martinha chorava mais. Desta feita, todas as lágrimas acumuladas lhe saíram e molharam o rosto e colo da professorinha, que, surpreendentemente, reanimou. As crianças se espantaram, sem se mover, com medo da madre; só Luiza, incontida, gritou: “É um milagre!”. Irmã Emília, não tendo tempo para achismos, mandou que parassem de besteira, que isso era natural e não tinha nada de milagre; queria, no fundo, punir o responsável pelo ocorrido.  

Para apaziguar os ânimos, Martinha se levantou e relatou, num lapso inesperado de lucidez, que Amália teria pisado no próprio vestido e, por isso, escorregado –  felizmente, naquele dia era longo –; que estava tudo sob controle; que precisavam ir ao hospital para, possivelmente, suturar o local. Irmã Emília assentiu, para se livrar do problema, inclusive porque se via de dor de cabeça – era enxaqueca, que lhe atacava, vez ou outra; algo a empurrava para longe da sala.  

…  

A professorinha foi afastada por exatas duas semanas e, quando retornou, fizeram uma senhora festa, que contagiou o colégio. Nem irmã Emília sabia desse carisma todo. Ficou constrangida de, sequer, tocar no assunto – embora houvesse preparado, nesse período, o corretivo-sermão.  

Reassumindo as atividades, muito tranquila, Amália agora diz não correr o risco de uma febril empolgação – sem olvidar os caminhos que lhe conduzirem as íntimas letras e a possibilidade de flanar pelos campos cujas flores careçam de atenção.  

Adriano-B.-Espíndola-Santos Flor de arribaçã Prosa e Poesia e Vice Versa

Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados nas Revistas Acrobata, Arara, Berro, Brasil Drummond, dEsEnrEdoS, Diversos Afins, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mbenga, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

“Contículos de dores refratárias” é o primeiro livro de contos do advogado cearense Adriano B. Espíndola Santos. Imperdível, diga-se assim de cara. Uma obra que apresenta de forma vertiginosa, mas harmônica, pessoas, lugares, sensações e sentimentos. Adriano equilibra com grande facilidade uma narrativa que vai do sarcasmo ao lirismo, mantendo um tom aguçado de crítica e denúncia que se percebe tanto nos contos mais irônicos quanto naqueles em que sofrimento, perda e morte são a tônica. [...] O que mais impressiona e encanta na leitura dessa obra é a versatilidade. Extraindo a sua escrita das dores do mundo, Adriano tece textos ricos, vivos, atuais, permitindo que o leitor se sinta inserido em cada cenário. [Por Cinthia Kriemler]

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