A descoberta de si como mulher em um futuro distópico: “iô”, de Camila Lourenço, está disponível em e-book

Novela em versos, “iô” reflete sobre cuidados com a natureza, colonialismo e emancipação feminina; obra distópica da escritora paulista foi publicada pelo selo Auroras, da Editora Penalux

Iô é uma mulher criada em uma ecovila, distante do que sobrou da sociedade devastada pela quarta revolução industrial. Ela cresceu com o pé no barro e a barriga cheia de água de cachoeira. É dedicada a amar à sua deusa e aos seus, devoção tão suave quanto balançar na rede sentindo a brisa da mata. Até que Dante, homem da cidade, crescido entre plástico e ferrugem, chega à vila. A brisa vira tornado e iô sente o amor queimar. Em chamas, ela o segue para além de seu mundo, levando sua visão selvagem e motivação nada frágil.

 

Uma personagem em fuga, audaz, com pressa de viver a sua paixão. No entanto, nada é incondicional tampouco tão importante que não possamos abrir mão. É o que a protagonista de “iô” (Editora Penalux, 84 p.) aprende ao longo de uma história surpreendente escrita pela paulista Camila Lourenço, que agora ganha versão digital. A orelha é assinada por Dani Costa Russo, jornalista, escritora e editora do selo Auroras, da editora Penalux.

 

O livro se apresenta em um futuro distópico e contrastante. Aborda o amadurecimento de uma mulher diante do colonialismo do homem branco, fala sobre emancipação feminina, sexualidade, patriarcado e evidencia uma conexão espiritual, até mística, da protagonista com a natureza, o que se reflete em versos fluidos e sonoros — eles perpassam a migração da cidade para os terrenos vazios, e ainda preservados, entre polos industriais;  a jornada de trabalho; as redes sociais virtuais; o consumo desenfreado; e pelo funcionamento de uma sociedade que se tornou insustentável para aqueles que só enxergavam a opção de ir embora – e foram. 

 

“Ficaram os apaixonados por concreto e os que não tinham condições de partir. Mas a desistência dos que se foram agiu como uma porca jogada no meio de uma engrenagem sensível: metrópoles ruíram. E iô viu os dois lados”, expõe a escritora.

Na estrada, com livros de distopia e The Smiths

Camila Lourenço nasceu em Campinas, no interior de São Paulo. O nascimento em Campinas foi apenas uma questão de necessidade – não havia maternidade em sua cidade, Sumaré, àquela época. Cresceu no bairro Vila Yolanda, inspiração para o nome de sua primeira protagonista, iô. 

A história lhe ocorreu no tempo em que passava no transporte público, entre idas e vindas para trabalhar e estudar. “Estar dentro de um ônibus por três horas todos os dias, vendo passar pela janela – quando conseguia enxergar a janela – uma rodovia feia, cercada por prédios feios, me fez querer ir embora inúmeras vezes. Eu só não sabia pra onde. Então comecei a imaginar.” E a imaginação foi guiada pela trilha sonora da banda The Smiths e leituras distópicas, desde  “O Conto da Aia”, Margaret Atwood, até “Jogos Vorazes”, trilogia de Suzanne Collins.

“Enquanto terminava de escrever o livro, descobri ‘O peso do pássaro morto’. Aline Bei me deu coragem de terminar um livro que era híbrido e que, até então, eu não sabia se poderia virar alguma coisa”, conta Camila, afirmando que outro tema recorrente para sua escrita é a fuga que acontece em “Uma casa de bonecas”, de Henrik Ibsen. “E existe um livro que me marcou como ferro quente e que continuo a perseguir em todos os meus textos. Esse livro é ‘O Memorial de Maria Moura’, da Eça de Queirós”, revela.

Com 30 anos, Camila Lourenço é formada em Letras pela Unicamp, letrista por graduação e escritora desde que aprendeu a ler. Começou a escrever seu primeiro livro aos dez anos em um caderno espiral, que se esconde hoje entre outros tantos cadernos-diários. Em 2020 lançou seu primeiro trabalho, “Algodão Cru”, um livro curto de contos publicado de maneira independente pela Amazon. Depois, assinou com o selo Auroras, da editora Penalux, a publicação de sua primeira novela em versos, “iô”. Os livros foram concebidos durante a mentoria com a escritora, poeta e cordelista cearense Jarid Arraes. Além disso, participou das coletâneas “Meu coração não está de quarentena”, da editora Psiu e “Entre Janelas vol II”, da editora Oribe. 

Os primeiros versos de “iô” foram escritos no bloco de notas do celular, dentro do ônibus. “Escrevia apenas assim e muito espaçadamente. Até o ano de 2020 quando fiz uma mentoria de escrita com Jarid Arraes. Depois de terminar o original de um romance em prosa, pedi a ela que me mentorizasse na poesia também. Resgatei ‘iô’ e a ideia era brincar com os versos e só. Mas naquele primeiro ano de pandemia, a ideia de que nossa sociedade não se sustenta era ainda mais clara e o enredo saiu com facilidade em questão de semanas”, detalha. 

A escritora também é responsável pelas ilustrações do livro. As imagens que ilustram a capa e o início de cada capítulo vão além da estética. As pinturas feitas com giz pastel oleoso e aquarela surgiram como um fio condutor para o enredo que se desenrolava. “Em meio ao isolamento devido à pandemia da Covid-19, escrever se tornou (ainda mais) difícil. Diante do impasse, ter em mãos um pedaço de giz e no resto do corpo a história, foi um jeito de abrir uma estrada entre a latência e as letras”, frisa a autora de “iô”.

Camila se diz transitar entre a poesia e a prosa, a ficção e a significação da realidade. Mora em Americana, cidade vizinha à de nascença, no interior paulista, e trabalha na área de tecnologia. No momento, trabalha na escrita de um livro de contos, devaneia um romance e busca morada para sua primeira novela em prosa. 

Também aguarda a publicação de seu primeiro livro infantil, intitulado “A menina que queria errar”, previsto para sair pela Editora de Cultura. Camila conta sobre o que o livro se trata: “É a história de Carol, uma menina que não sabia errar. Um dia, cansada disso tudo, ela decidiu que tiraria uma nota ruim na prova de português. Se preparou, estudou para falhar. Mas Carol não sabia errar. Ela não sabia nem falhar”.

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“Cativa, leve, astuta, terna, mulher-origem de um sagrado não corrompido, ainda natural e legitimamente humano. ‘iô’, de Camila Lourenço, é um alerta íntimo, individual, da nossa relação habitualmente conflituosa com o meio, com o próximo, com o nosso sexo, com o quanto deixamos o masculino nos levar para longe, tão longe a ponto de nos fazer desejar pelo que, a cada dia, esquecemos sem querer esquecer. Para longe do que temos seguro apego.”

Dani Costa Russo, jornalista, escritora e editora do selo Auroras, da editora Penalux

Confira um trecho de “iô”:

iô era seu nome

manchada era sua tez

grosso era seu cabelo

a voz firme, os olhos

os olhos

carregavam as rochas que jaziam

no fundo do lago

era assim

 

riso fluido e a língua

afiada

 

iô aponta o nariz pro céu

toma ar

espalma a mão no chão

sente

o ar entrando

pelas narinas

como correnteza

sente

os rios de vida que correm

por baixo da terra

 

ela pulsa

inteira

corpo alma

mente coração

e o que mais houver para pulsar

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