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Paulo Mendes Campos, o cronista por excelência

Paulo Mendes Campos é considerado como um dos maiores escritores da literatura brasileira. O mineiro que nasceu em Belo Horizonte no ano de 1922 pertenceu a uma geração de grandes nomes, entre eles Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Rubem Braga, todos exímios poetas e cronistas. Mesmo ao lado de nomes consagrados, foi ele quem melhor traduziu em textos permeados de lirismo e beleza o gênero crônica.

O amor acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

 In: O amor acaba, Paulo Mendes Campos, seleção e apresentação Flávio Pinheiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2013

Paulo Mendes Campos foi um escritor, poeta e jornalista brasileiro. Mineiro de Belo Horizonte, nasceu no ano de 1922.

Em 1945, vai para o Rio de Janeiro a fim de conhecer o poeta Pablo Neruda.

O escritor iniciou a vida literária aos vinte e três anos, quando mudou-se de Minas. Suas crônicas despertaram a atenção da crítica literária logo que começaram a ser publicadas em jornais como o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil, e também na revista Manchete. 

Permanece no Rio, onde já estava morando o amigo mineiro Fernando Sabino e para onde depois também se mudaram Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino. Encontrando-se, os três amigos mineiros formam o quarteto famoso autointitulado “Quatro cavaleiros do apocalipse”.

Colaborou nos principais jornais cariocas, em O Jornal, Correio da Manhã, do qual foi redator, e Diário Carioca, onde manteve uma coluna diária intitulada “Primeiro Plano”. 

Foi, durante muitos anos, um dos três cronistas efetivos da revista Manchete e Diretor de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

Em 1949, vai pela primeira vez à Europa; em 1951, casa-se com Joan Abercrombie, de origem inglesa e lança seu primeiro livro, A palavra escrita.

Em 1958 publicou “O Domingo Azul do Mar”, seu grande sucesso. Em 1960 publicou seu primeiro livro de crônicas, “O Cego de Ipanema”. Em seguida publicou: “Homenzinho na Ventania” (1962), “Os Bares Morrem numa Quarta-feira” (1981) e “Diário da Tarde” (1996). Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 1 de julho de 1991.

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As Mãos que se Procuram

 

Quando o olhar adivinhando a vida

Prende-se a outro olhar de criatura

O espaço se converte na moldura

O tempo incide incerto sem medida

 

As mãos que se procuram ficam presas

Os dedos estreitados lembram garras

Da ave de rapina quando agarra

A carne de outras aves indefesas

 

A pele encontra a pele e se arrepia

Oprime o peito o peito que estremece

O rosto o outro rosto desafia

 

A carne entrando a carne se consome

Suspira o corpo todo e desfalece

E triste volta a si com sede e fome.

 

Amor Condusse Noi Ad Una Morte

 

Despede Teu Pudor

 

Despede teu pudor com a camisa

E deixa alada louca sem memória

Uma nudez nascida para a glória

Sofrer de meu olhar que te heroíza

 

Tudo teu corpo tem, não te humaniza

Uma cegueira fácil de vitória

E como a perfeição não tem história

São leves teus enredos como a brisa

 

Constante vagaroso combinado

Um anjo em ti se opõe à luta e luto

E tombo como um sol abandonado

 

Enquanto amor se esvai a paz se eleva

Teus pés roçando nos meus pés escuto

O respirar da noite que te leva.

A uma Bailarina

 

Quero escrever meu verso no momento

Em que o limite extremo da ribalta

Silencia teus pés, e um deus se exalta

Como se o corpo fosse um pensamento.

 

Além do palco, existe o pavimento

Que nunca imaginamos em voz alta,

Onde teu passo puro sobressalta

Os pássaros sutis do movimento.

 

Amo-te de um amor que tudo pede

No sensual momento em que se explica

O desejo infinito da tristeza,

 

Sem que jamais se explique ou desenrede,

Mariposa que pousa mas não fica,

A tentação alegre da pureza.