5 Poemas de André Siqueira

A poesia sensorial de André Siqueira retorna a revista em 5 novos poemas. Paulista, de Jacareí, André é autor de As Manhãs Fechadas, lançado em 2020 pela Editora Gataria.

Poema interiorano   

 

 chove como sempre escreveram   

nos livros e canções amigas  

distantes estamos contando   

os casos enquanto calangos   

correm na aridez do concreto   

  

fico sentado, vejo o verde   

aos borbotões entre a folhagem   

verde suculento que enverga   

uma saudação japonesa   

apanhando da gota estúpida   

  

ouvi melhor o meu quintal   

o mato tomando terreno   

roça a gotícula infinita   

restante que desce da telha   

cerâmica Vila Martins   

  

ligo as telas tão antenadas   

e transmitem a morte longa 

percebo o quintal e sorrio  

o sorriso do filho, canta  

o galo morador ilustre   

do bairro, a dona mora ali   

a tarde anila a calcedônia   

pelos ares duros do adeus   

  

levanto, saúdo o passeio  

pela casa trancada em ponto  

sem final que desce da telha   

cerâmica Vila Martins   

  

chove como sempre escreveram   

o pingo bate, fere a folha  

que recurvada reza e vela   

vidas lembradas sobre a tarde   

  

uma gota insiste na telha  

cerâmica Vila Martins   

(Sem título)  

chuviscou nos telhados simples   

as gotas dançavam dulcíssimas   

trespassando os pedestres rápidos   

indo e voltando pelo asfalto   

empoçado numa renúncia   

de quem cansou de tanta gente  

que passa e não percebe os cacos   

de esmeraldas nos velhos ombros   

dos muros plantados nas terras   

abertas pelas mãos passadas   

silentes no canto da casa  

erguida no solo tocado   

  

chuviscou nos telhados simples  

as gotas acertavam como  

barcos de papel naufragando   

no mar de imagens chuviscadas  

(Sem título)  

o silêncio quebrado apenas   

pelo pernilongo da casa  

mata o tempo das horas moucas   

horas corredoras da noite   

enquanto na parede o dono   

é o relógio cafona como  

a minha cara malpassada   

nos ponteiros do meu relógio   

sedento e sisudo conduz   

a bocarra que enruga e cospe   

os detritos vãos da memória  

Fendido   

  

Aqui começo a ter as fendas  

na cara pobre. Bocejar   

sussurração dos que começam   

a caminhada relutante.  

  

Exercitar o vazamento.  

Preguiça tosca serpenteia    

sem condução que tudo para,  

qualquer momento, vaporoso.  

  

O carcomido borrifar   

de limo velho avarandado   

da pele, carne cimentada.  

E me confundo nesses móveis   

empanturrados. Empenado   

dentro da pena sem escrita.  

  

Pincelo a casca leporina,  

matamatá consome a margem  

imersa. Limpo a tensa calha   

tolhida e gasta no apagão   

encouraçado na água cinza.  

  

Encalacrado o caminhante   

numa travessa corre ilhado.  

Finjo mudez atrás da máscara.  

Aqui começo a ser as fendas.

O cabide   

  

O cabide quase  

terno de precisas   

curvas e despidas,  

na ausência do terno  

mostra o figurino   

vazado, vazio   

de nada. Percebo   

na estranheza tão   

guardada que posso,  

atento, vestir   

a roupa de magra  

vista do cabide   

discreto, guardado,  

dispensado só. 

As manhãs fechadas, de André Siqueira foi lançado em 2020 pela editora Gataria

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O poeta, por ele mesmo

Prosa e Poesia e Vice Versa  andre-siqu-e1612056096450-236x300 5 Poemas de André Siqueira

Sou poeta e moro em Jacareí, interior de São Paulo. Cursei a faculdade de Letras pela UNIP, porém sem concluir. Publiquei em 2020 meu primeiro livro de poesia por uma editora, intitulado As Manhãs Fechadas (editora Gataria). Já colaborei em diversas revistas, jornais, blogues e antologias de poesia. Atualmente participo de eventos, palestras, oficinas e saraus, além de escrever regularmente para a revista de literatura e arte Pixé

Poemas de André Siqueira

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