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Carlos Orfeu

Natural de Queimados, no Rio de Janeiro, Carlos Orfeu foi arrebatado pelos versos de Fernando Pessoa e pela efervescência dos encontros poéticos e saraus. Como escritor lançou os livros “(In)visíveis Cotidianos (LiteraCidade, 2017) e “Nervura” (Patuá, 2019). Dono de uma escrita repleta de imagens e sensibilidade, possui diversos poemas publicados em blogs e revistas literárias.

A escolha estética, que envolve forma mas também a atitude diante de um contexto determinado, guia o que consumimos culturalmente e como acabamos por nos expressar. Como o sabemos amante não só das letras mas do lado mais dark do pós-punk dos anos 80, queríamos que você falasse desse somatório de novas experiências e descobertas e como foi atuando esse link entre o que o poeta descobre e acaba revelando na sua escrita. 

Como você disse “a atitude diante de um contexto determinado, guia o que consumimos culturalmente e como acabamos por nos expressar”. As músicas dessas bandas darks dos anos 80 me levaram ao primeiro contato com a poesia. A paisagem cinzenta e alucinada de bandas como Bauhaus, Joy Division, The sisters of Mercy construíram a poesia descarnada dos abismos de névoa. Essas bandas me fascinaram no limiar do conflito das minhas angústias por volta dos meus 15 ou 16 anos. A partir dessas bandas conheci Edgar Allan Poe, Lord Byron, Rimbaud Etc… Quando entrei em contado com as muitas pessoas de Fernando Pessoa, foi uma revolução interna para mim. Vi outros modos de pensar o fazer poético. Hoje minhas referências poéticas são outras e o modo de pensar a poesia também. A poesia como bem disse Heidegger é como a casa do ser. Mas, devo dizer que até hoje, a sonoridade dessas bandas me acompanham.

A poesia como bem disse Heidegger é como a casa do ser.

A juventude tem sido influenciada pelos encontros de poesia falada. Como você enxerga o futuro da poesia escrita, como ela irá ser veiculada? Existe um zine-meme-futuro ou o livro persistirá? 

A voz é o rio do ser em fluxo. A poesia é incansável metamorfose. Há poetas maravilhosos que utilizam a oralidade para vociferar poesia, nomes como Pedro Bomba, Valeska Torres e as mulheres poetas do Slam das Minas aqui no Rio de Janeiro, levam a poesia para outras moradas e possibilidades. Penso que o livro como disse George Steiner “… é um poder incalculável. Precisamente porque o mesmo livro e a mesma página podem ter efeitos totalmente díspares sobre diferentes leitores”. O livro atravessa muitas gerações. os livros virtuais, avançados tecnologicamente, não têm a essência ontológica que um livro físico desperta em nós. Como tatear as páginas e sentir o cheiro – cada livro pode ter um cheiro diferente pertencendo a uma outra morada, ou fruto de outra experiência. Espero que os leitores continuem carregando livros como parte do corpo em trens, ônibus etc. e que eles continuem dando de comer e beber aos famintos imaginários. 

Quando e como veio a decisão de escrever. E a de escrever e publicar e escrever e publicar de novo? 

A decisão de escrever emergiu em mim ainda na adolescência. Escrever para mim é meu modo de habitar o mundo inaugurando outros mundos possíveis. Desentranhar do real o poema – outra possibilidade de respirar  nesse mundo cada vez mais irrespirável. Por isso escrevo, para respirar, afrontar um rosto desconhecido, como disse uma vez o poeta Edmond Jàbes. A decisão de publicar um livro veio do incentivo de minha companheira e também poeta Wanda Monteiro. Escrever e Publicar um livro de poesia é resistir nesses tempos de imbecilidades, cegueira e barbárie. 

Acordo, entro no trem, trabalho 12 horas por dia, durmo mais ou menos 4 horas ou 5 horas no que me resta do dia eu escrevo – construindo o poema nos intervalos da rotina – é nesse interlúdio que eu respiro e escrevo o poema e o vejo se movendo. Convivo com ele entre meus afazeres do cotidiano.

A poesia tem um papel? O que você espera de quem te lê? 

A poesia é a possiblidade de tatear o outro com o verbo. Esse tatear linguístico pode mudar o instante, uma vida inteira. A poesia é profundamente humana, é o que ainda temos de humano. O papel da poesia é mostrar-nos a face mais humana. O que espero de quem me lê? O poema ele nunca se completa. Cada leitor põe um pouco de si no organismo do poema para que nele caminhe e se reescreva. 

A poesia irá derrotar o dragão da maldade? Há moinhos de vento a enfrentar ou as bestas são reais? 

 A poesia é um enfrentamento contra os castelos da imbecilidade dispersos no mundo. As bestas são reais. Através da poesia podemos respirar entre as ruínas do humano-besta. 

A poesia é um enfrentamento contra os castelos da imbecilidade dispersos no mundo.
O poema pulsa e vive em nós como o osso no corpo, o sangue na veia. Ser poeta é ver a vida por infinitas películas.
nervura-oqv5cigvrp71kulgn3q4kl4j4xsskqun4636tm5oy0 A nervura à mostra do poeta Carlos Orfeu Contemporâneos Entrevistas
(Clique na imagem para acessar)
Conversa com o autor Carlos Orfeu