fbpx

CAIA, PONTE: LITERATURA EM SUBTRÓPICOS TENSOS

Marcelo Labes, das edições Caiaponte (Florianópolis), está despontando na cena pela alavanca de um enfrentamento importante: como superar a opressão cultural e outros conservadorismos brazucas?

Enquanto o continente inteiro convulsiona, no Brasil um dos principais alicerces do neoconservadorismo é a aliança reacionário-folclórica da elite econômica de Santa Catarina  que, como todos sabem por números das eleições de 2018, arrastou consigo 76% da população votante. Como conseguiram isso? Dentre uma série de fatores complexos, um deles é de ordem identitária. Ou melhor: ignorância identitária. Explico. 

Pra começar, o fenômeno não é exclusivo de Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, a folclorização de uma ideia si e a oficialização de certos discursos culturais produz uma série de apagamentos e silenciamentos de minorias, ao mesmo tempo em que falsifica, com o estabelecimento da “tradição”, a ideia que as próprias parcelas privilegiadas fazem do seu passado, dificultando o autoconhecimento e dando permeabilidade social a performances políticas que cumpram parentesco com o que se espera folcloricamente do “gaúcho ou do colono. 

Esse tipo de coisa se repete por todo lado. O exemplo do Rio Grande do Sul tem suas especificidades, calcadas numa assertividade identitária que poucas vezes vi em outros lugares – mas, ainda assim, o sequestro da memória conduzido pelas classes dirigentes sobre nosso autoconhecimento enquanto comunidades é um fenômeno geral. Em Santa Catarina, agravado por algumas circunstâncias específicas. 

A principal delas é o discurso sobre a participação étnica no estado, muito baseado na valorização do papel do imigrante europeu como agente da ordem e do progresso, o que subjaz toda a propaganda que SC, desde que eu sou criança, faz sobre si mesma como aquele lugar do Brasil que, mesmo em momentos de adversidade, segue conquistando desenvolvimento econômico, contrariando o restante do país. A associação da imagem de um sujeito branco, europeu, cristão e ascético no trabalho com a noção conservadora do progresso econômico produz, não raro, a ideia disseminada por todo o estado de uma espécie de paraíso primeiro-mundista enclavado no coração do subdesenvolvimento (a “Europa brasileira), passando por cima das evidências de que cidades como Blumenau, ou Florianópolis etc., apresentam problemas sociais generalizados da mesma ordem das outras regiões do Brasil – que a cenografização de enxaimel e de trajes típicos mal consegue esconder.  

Ou melhor: consegue, e aí está o ponto: contra toda essa água oxigenada atirada sobre a cultura, é preciso estar atento e fazer o gesto de olhar no contrapelo das coordenadas que o discurso oficial nos fornece sobre nós mesmos. Se fizermos isso, veremos que por baixo dos pelos descoloridos artificialmente por gestos políticos, há muita vida escondida. Nunca deixo de lembrar que, quando fui caixa do Banco do Estado em Nova Erechim, no dia do pagamento dos operários da indústria moveleira os traços que prevaleciam na fila à minha frente eram indígenas; e que, na linha de produção dos frigoríficos em Chapecó, a regra é o trabalhador descendente da população cabocla ou o imigrante haitiano – contrariando, assim, a associação de exclusividade que se estabelece entre o mundo do trabalho e o homem branco no estado. 

A ignorância de si se desdobra, também, numa reação xenofóbica em relação ao “Brasil” e ao brasileiro, principalmente aquele dos lugares mais pobres, como o nordeste, visto como incapaz, por sua cultura inferior, de se adequar aos imperativos do desenvolvimento capitalista. Esse sentimento é a base do separatismo sulista em geral, que encontra expressão assustadora em Santa Catarina, fundado numa noção elitizante e conservadora daquilo que somos, e alimentando-se da crença de que, através da separação, supostos “defeitos” da formação cultural do Brasil poderiam ser eliminados, já que, supostamente, o sul não compartilha dos mesmos defeitos. Isso geralmente aparece no discurso dos simpatizantes da causa separatista quando falam em suposta “preguiça”, “atraso”, “acomodamento” e “espírito corruptível” que caracterizariam o Brasil acima do trópico e, livrando-se deles, então, os “povos mais avançados” do sul poderiam buscar seu futuro glorioso. Tal concepção é um absurdo de falta de conhecimento não só de si, mas também do outro (e vejo as duas coisas como absolutamente complementares). A essa ideia completamente equivocada sobre si mesmos, que nos leva a estabelecer relações violentas e verticais com os outros, excluindo-os da ideia de uma “nossa comunidade, e que é usada para arregimentar todo tipo de inclinação fascista – a essa ideia é que estou, aqui, chamando de “ignorância identitária”. 

É claro que ninguém é simplesmente sujeitado a nenhuma cultura, mas não se pode ignorar a força coativa das coordenadas simbólicas estabelecidas socialmente na formação da ideia que o sujeito (e o eleitor) possui de si, de sua “comunidade nacional e da forma com que deve participar nela. Talvez, em Santa Catarina, estejamos pecando justamente nisso. Como alento, no entanto, cabe mencionar que a cena artística do estado parece estar despertando para o problema e posicionando-se com vigor: o espetacular livro Enclavede Marcelo Labes, é o maior acontecimento recente de que tenho notícia em termos de abordagem crítica da própria cultura e desmitificação do imigrante europeu no sul do Brasil. O Labes, que é descendente do imigrante alemão em Blumenau, na impossibilidade de falar como alguém que experimenta a cidade da perspectiva das minorias invisibilizadas, escreveu um livro fabuloso em que opta por falar da própria experiência de maneira crítica  e não laudatória , estabelecendo parâmetros para que o próprio beneficiário do discurso oficial (o descendente do alemão) possa perceber de que maneira continuar assumindo sua forma folcloritária de participação nessa sociedade configura uma perversidade. 

A força do gesto anti-conservador de Enclave, que toca em pontos cruciais da formação ideológica do Brasil recente e suas raízes fascistas obscuras, foi reconhecida com a indicação do livro às finais do prêmio Jabuti de poesia  embora não tenha recebido a premiação máxima. Paralelamente ao Enclave, que foi publicado pela editora paulista Patuá, Labes resolveu tornar-se editor de seus próprios terrorismos e fundou recentemente a editora Caiaponte, em Santa Catarina, com a menção explícita de dinamitar as ideias prontas que o estado faz de si  afinal, a maldita ponte Hercílio Luz segue sendo seu símbolo máximo. Por essa editora, publicou o não menos impactante romance (seu primeiro) Paraízo-Paraguay, a respeito da formação das colônias de imigrantes alemães no Vale do Itajaí e sua participação na guerra genocida do Paraguai. O livro mereceu o segundo lugar no importantíssimo prêmio Machado de Assis, promovido pela Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, consolidando a contundência da poética contra-folcloritária do autor. 

O exercício e as experiências comandadas por Marcelo Labes estão sendo fundamentais para o reposicionamento do artista catarinense nas questões de seu estado e sua participação na cultura e política nacional. Está se tornando referência incontornável para os interessados na transformação sensível de seu estado esquisito. Adquirir consciência sobre si é um processo de lapidação que nunca termina. Em Santa Catarina, ainda estamos num estágio bruto. Para reverter isso, mais do que apenas tematizar o estado e sua cultura nas obras de arte, o decisivo é pensar formas de articulação dos artistas entre si (para que se conheçam) e dos artistas com seu público local (o que, afinal, não existe). Estamos, em Santa Catarina, acostumados a ser obliterados pelas grandes capitais culturais que nos cercam (Porto Alegre, São Paulo, Rio, talvez Curitiba), consumindo suas obras e deixando, nesse processo, de estabelecer uma relação mais íntima conosco mesmos e com os nossos defeitos e potencialidades. 

O espírito crítico, ao contrário do laudatório ou folcloritário, é justamente aquele que possibilita que o erro seja milionário (Oswald), no sentido de que nos transforme profundamente com base na identificação e problematização do que já não nos serve. Não se trata de negar nossas idiossincrasias, particularidades, formas próprias de interação com o mundo, porque elas existem  e precisamos colocá-las sob perspectiva. Precisamos debater a nossa própria experiência e abri-la ao debate. Precisamos compartilhá-la, criticamente, entre nós. Talvez isso possa ajudar um pouquinho na tarefa de nos tirar da obscuridade sobre nós mesmos e nos salvar das obscuridades para as quais marchamos fardados em dirndl e lederhosen. 

 

Gustavo Matte (Chapecó/SC) é escritor e crítico literário. Coordena e produz conteúdo para o blog Entrevista a Cena (https://entrevistaacena.wordpress.com/). Publicou, em 2017, o romance Demo Via, Let’s Go! e o ensaio literário Menos Tropical e Mais Tropicalista. Seu último livro, Nuvem Colona (2019), foi um dos três romances de inauguração da editora Caiaponte. 

(Clique na Imagem e Participe!)

“Contemporâneos enxergam pouco; o futuro vê melhor.
Pois então: saindo da fumaceira deste presente estranho, Nuvem Colona foi escrito num futuro indefinido, em algum momento após a década de 2030, quando tudo ficou mais claro.
Tudo o que se refere ao impressionante movimento chamado “Nuvem Colona”. Conhece? Ouviu falar?
Sei. Tu tava aí perdendo tempo com essa espuma toda de isso e aquilo, presidente que não merece mas está, filharada fazendo caca nas redes sociais, desemprego, crise social, essa bronca.
Então vem comigo para o futuro, na garupa do romance do Gustavo Matte, seu segundo ótimo feito no gênero, mais uma vez reinventando a roda narrativa, como cabe quando se trata de dizer coisas que não cabem nos formatos existentes.
Irônico desde o começo, autocrítico e brincalhão sobre coisa séria, Nuvem Colona faz de conta que é um livro com entrevistas, feitas e editadas de modo a oferecer um panorama ao mesmo tempo denso e aberto – tipo Mate-me, por favor!, de Legs McNeil e Gillian McCain (1997), tipo Gauleses irredutíveis, de Cristiano Bastos, Alisson Ávila e Eduardo Müller (2001). Um sobre o punk, outro sobre o rock gaúcho, ambos são livros feito filmes impressos, corte-e-montagem rápidos, meio desaforados e nervosos, em plena sintonia com o tema e o tempo.
Nosso Nuvem Colona também é tudo isso, com a diferença primeira de ser ficção, e segunda de versar sobre o mundo dos jovens que se enxergam como diferentes por terem vindo a Porto Alegre desde o mundo colono – que pode ser Chapecó, base maior, mas também pode ser Caxias ou Passo Fundo.
Bom de ler, o novo livro de Gustavo Matte dá a ver uma cidade que é de todos, antigos e novos, num clima que, acabo de me dar conta, tem algo de Friends, crônica de geração com leveza e profundidade, sempre interessante.
Não perdi nenhum capítulo e ganhei uma excelente história do nosso tempo, aqui e agora.”

 Luís Augusto Fischer