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“o que carrego no ventre” de Marcelo Martins Silva

Natural de Porto Alegre (RS), Marcelo Silva é poeta e professor de Literatura e Língua Portuguesa. Em 2015 participou da coletânea de poesia “Cantos Seletos”, publicado pela Editora Literacidade. Editor na revista Verborhagia, escreve no blog Desalinhado. Seus poemas e contos foram publicados em diversos sites e revistas de literatura.

A escritora Alice Souto resenha “o que carrego no ventre” livro lançado pela Editora Figura de Linguagem em 2019.

“Carrego uma coisa viva dentro do peito, acho que é um pássaro. Tenho os pés descalços e a sensação de que muitos versos caminham no meu ventre (…)”. 

Marcelo Martins é mais um Silva, uma multidão. “O que carrego no ventre” é um livro carregado de embarcações. Contém muitos corpos negros paridos de único ventre. E o lirismo dos seus versos vão embalando a gente como mar, música ou sonho. Desde a noite do continente africano, aos solavancos, submergimos juntos… e ressurgimos! 

“Somo um continente 
Um corpo negro infinito 
E de todas as coisas que aprendi na vida 
Essa me veio na cor: 
Resistir” 

De uma página a outra, vamos dançamos ao som do vinil girando na capa. Seu livro contém muitos deslocamentos. Por terra ou ônibus lotado, o autor vai nos apresentando a Porto Alegre desde seu bairro, o Morro Santana. “A cor da minha pele ativa os sensores da cidade/ Seguranças, lojas, bancos/ Todos espantados Brancos”. Por sua poesia nos é dado a conhecer a intimidade da sua casa e o supermercado, onde “Quem não é preto É quase” e “Quem não é quase, nem preto É pobre”. Marcelo, é muito generoso em ensinar seu mundo. E o seu livro abarca com profundidade de oceano a vivência da negritude urbana, periférica, trabalhadora, acadêmica. Com zanga e ginga! 

“Vai uns anos que terminei o Mestrado em poesia 
Em letras ornamentadas, no diploma, veio escrito: 
Parabéns, honey baby! 
E junto, na mesa, um punhado de moedas para usar de troco. 

(…) 

Na saída me deram um tapa na cara, 
falaram que era domingo 
e que tinha samba no Paulista. 
Eu que fosse para lá! 
(Não esquece: samba no Paulista!) 

Já vai uns anos ando por aí sem diploma!” 

Essa tensão com o meio acadêmico, se mostra também em: 

“Sou o poema não permitido pela academia 
Desalinhado, sem métrica nem rima 
Leitura proibida 
Aquele que se formou fora da idade 
Numa faculdade qualquer” 

Mas não há dúvidas de que Marcelo é um professor: 

Os alunos não querem saber do predicado, do sintagma, do pronome 
Tampouco de mim. 
Os alunos querem saber do marcelo 

E se perguntam quem é aquele? 
Que ilusões carrega? 
Que sonhos há em seus cabelos 

E nos fios brancos da barba?” E quem lê o seu livro, fica sabendo mais dele. Como eu disse, o autor é muito generoso ao compartilhar tamanha intimidade conosco. O acompanhamos neste percurso corpo/cidade. A poesia em conta gotas cotidiana vai se insinuando obsessivamente pela noite do poeta. Com os ouvidos sensíveis de quem escreve ouvindo jazz, vozes antigas, tiros, gritos, o motor da geladeira ligada na madrugada… Ruídos de insônia poética. Tudo assim misturado lisergicamente, assuntos vão e vem ao longo do livro, com leveza, pressa, sonhos e sustos de alguém que leva “dias acordado como quem acabou de nascer”. 

E o ventre do poeta se rasga em vísceras, “Corpos mutilados, restos de estrelas/ A gente esmagada na paixão do progresso”, “palavra que pula no abismo / amarrada na caneta suicida/ sem medo do papel”. Angústias que encontram a breve redenção no calor das cobertas ao lado da mulher amada. São esses momentos, quando a primavera floresce no livro, que a gente volta a respirar aliviados do naufrágio. Pois como dizem os Poetas Vivos “os resistentes também amam”. Marcelo é uma beleza de “preto no sul”. Porto Alegre, pelos seus olhos marejados faz jus ao nome, dorme a terra úmida e honra suas raízes: 

“Porto Alegre, escute os tambores e esqueça: 
Você nunca foi Europa, nunca foi portenha 
O Bom Fim nunca foi Berlim 
Nunca teve rock britânico; 
Esqueça essa bobagem toda 
Tira a bombacha.” 

Um livro que serve imensamente bem ao mês da consciência negra, mas não só. Editado pela Figura de Linguagem, que só tem pedrada. Poesia política para falar no sarau, no debate, no teatro, na escola… para aprender de cor mas não só. Poesia de cor, mas não só uma. Ao fazer uma leitura muito rápida o leitor desatento só vai enxergar o negro. Mas detenha-se no livro e verás a profusão de cores sob a superfície. Bom mergulho! 

54515735_2297228000329889_3703795958585229312_n “o que carrego no ventre” de Marcelo Martins Silva Livros Opinião

Alice Paiva Souto é natural do Rio de Janeiro e moradora da cidade de Chapecó. É psicóloga, produtora cultural e poeta. Graduou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fez pós-graduação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com pesquisa de doutorado relacionada à criação literária de adolescentes de regiões periféricas do Rio de Janeiro. Na área da produção cultural atua desde 2009 na produção de saraus literários, eventos de artes integradas e projetos sociais com oficinas literárias. Como poeta possui três publicações independentes e artesanais (fanzines): \”Traça a Traço\” (2012), \”Poesia Auto-Sustentável\”(2013) e \”Beijo Azul\” (2015) e tem realizado performances de poesia falada desde 2009 participando de eventos e dado oficinas área da literatura. Em Chapecó foi proponente do “Saraucária – O sarau” contemplado pelo edital Verão Cultural patrocinado pela Secretaria de Cultura de Chapecó. Integra e produz o Coletivo Manivas (Música e Cultura Popular). Também produz de forma independente o Sarau Nuvem Colona no bar do Zé (centro de Chapecó).

Marcelo Martins Silva mantém o blog Desalinhado e também publica poesia em diversos sites e revistas dedicadas ao gênero.  

Criou também a oficina “A poesia é um atentado celeste” na qual estimula o fazer poético por meio de exercícios que envolvem canções, imagens e trabalho coletivo. 

 

Entrevista

Radio A voz do Morro conversou com o professor Marcelo Silva sobre o lançamento de seu primeiro livro de poemas “O que carrego no ventre”. Marcelo, que mora na região do Morro Santana desde os 3 meses de idade, falou sobre sua trajetória, sobre o seu processo de “tornar-se” negro em uma sociedade extremamente racista e sobre as dificuldades do mercado editorial em aceitar escritores negros. Imagens: Leonardo Santos e Rodrigo Rodrigues Edição: Leonardo Santos