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Quatro Poemas de Manuel Bandeira

Manuel Bandeira (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho), professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário, nasceu no Recife, PE, em 19 de abril de 1886. Dono de uma extensa e influente obra, trazemos uma pequena seleção de alguns de seus poemas.

Os Sapos 

Enfunando os papos, 
Saem da penumbra, 
Aos pulos, os sapos. 
A luz os deslumbra. 

Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi: 
— “Meu pai foi à guerra!” 
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”. 

O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado, 
Diz: — “Meu cancioneiro 
É bem martelado. 

Vede como primo 
Em comer os hiatos! 
Que arte! E nunca rimo 
Os termos cognatos. 

O meu verso é bom 
Frumento sem joio. 
Faço rimas com 
Consoantes de apoio. 

Vai por cinquenta anos 
Que lhes dei a norma: 
Reduzi sem danos 
A fôrmas a forma. 

Clame a saparia 
Em críticas céticas: 
Não há mais poesia, 
Mas há artes poéticas…” 

Poética 

Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente 
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário 
o cunho vernáculo de um vocábulo. 
Abaixo os puristas 
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 
Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja 
fora de si mesmo 
De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante 
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes 
maneiras de agradar às mulheres, etc 
Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbedos 
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos 
O lirismo dos clowns de Shakespeare 

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. 

A Morte Absoluta 
 
Morrer. 
Morrer de corpo e de alma. 
Completamente. 
 
Morrer sem deixar o triste despojo da carne, 
A exangue máscara de cera, 
Cercada de flores, 
Que apodrecerão – felizes! – num dia, 
Banhada de lágrimas 
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. 
 
Morrer sem deixar porventura uma alma errante… 
A caminho do céu? 
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu? 
 
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra, 
A lembrança de uma sombra 
Em nenhum coração, em nenhum pensamento, 
Em nenhuma epiderme. 
 
Morrer tão completamente 
Que um dia ao lerem o teu nome num papel 
Perguntem: “Quem foi?…” 
 
Morrer mais completamente ainda, 
– Sem deixar sequer esse nome. 

Manuel Bandeira BANDEIRA, M. Lira dos Cinquent’anos, 1940. 

Poemeto Erótico 
 
Teu corpo claro e perfeito, 
– Teu corpo de maravilha, 
Quero possuí-lo no leito 
Estreito da redondilha… 
 
Teu corpo é tudo o que cheira… 
Rosa… flor de laranjeira… 
 
Teu corpo, branco e macio, 
É como um véu de noivado… 
 
Teu corpo é pomo doirado… 
 
Rosal queimado do estio, 
Desfalecido em perfume… 
 
Teu corpo é a brasa do lume… 
 
Teu corpo é chama e flameja 
Como à tarde os horizontes… 
 
É puro como nas fontes 
A água clara que serpeja, 
Quem em antigas se derrama… 
 
Volúpia da água e da chama… 
 
A todo o momento o vejo… 
Teu corpo… a única ilha 
No oceano do meu desejo… 
 
Teu corpo é tudo o que brilha, 
Teu corpo é tudo o que cheira… 
Rosa, flor de laranjeira… 

Manuel Bandeira BANDEIRA, M. A Cinza das Horas, 1917. 

Biografia

Manuel Bandeira (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho), professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário, nasceu no Recife, PE, em 19 de abril de 1886. 

Filho do engenheiro civil Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de Francelina Ribeiro de Sousa Bandeira. Transferiu-se aos dez anos para o Rio de Janeiro, onde cursou o secundário no Externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, de 1897 a 1902, bacharelando-se em letras. Em 1903 matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo para fazer o curso de engenheiro-arquiteto. No ano seguinte abandonou os estudos por motivo de doença e fez estações de cura em Campanha, MG, Teresópolis e Petrópolis, RJ, e por fim Clavadel, Suíça, onde se demorou de junho de 1913 a outubro de 1914. Ali teve como companheiro de sanatório o poeta Paul Éluard. Sua vida poderia ter sido breve, face à tuberculose, mas viveu até os 82 anos, construindo uma das maiores obras poéticas da moderna literatura brasileira. 

De volta ao Brasil, Manuel Bandeira iniciou a sua produção literária em periódicos. Em 1917, publicou A cinza das horas, onde reuniu poemas compostos durante a doença. Em 1919 publicou o segundo livro de poemas, Carnaval. Enquanto o anterior evidenciava as raízes tradicionais de sua cultura e, formalmente, sugeria uma busca da simplicidade, esse segundo livro caracterizava-se por uma deliberada liberdade de composição rítmica. Ao lado de “sonetos que não passam de pastiches parnasianos”, segundo o próprio Bandeira, nele figura o famoso poema “Os sapos”, sátira ao Parnasianismo, que veio a ser declamado, três anos depois, durante a Semana de Arte Moderna, por Ronald de Carvalho. Antecipador de um novo espírito na poesia brasileira, Bandeira foi cognominado, por Mário de Andrade, de “São João Batista do Modernismo”. 

Por intermédio do amigo Ribeiro Couto, Manuel Bandeira conheceu os escritores paulistas que, em 1922, lançaram o movimento modernista. Não participou diretamente da Semana, mas colaborou na revista Klaxon e também na Revista de Antropofagia, Lanterna Verde, Terra Roxa e A Revista. 

Em 1927, viajou ao Norte do Brasil, até Belém, com escalas em Salvador, Recife, Paraíba, Natal, Fortaleza e São Luís do Maranhão. De 1928 a 1929 permaneceu no Recife como fiscal de bancas examinadoras de preparatórios. Em 1935, foi nomeado inspetor de ensino secundário; em 1938, professor de Literatura Universal no Externato do Colégio Pedro II; em 1942, professor de Literaturas Hispano-americanas na Faculdade Nacional de Filosofia, sendo aposentado por lei especial do Congresso em 1956. Desde 1938, era membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 

Recebeu o prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira por conjunto de obra, em 1937, e o prêmio de poesia do Instituto Brasileiro de Educação e Cultura, também por conjunto de obra, em 1946. 

Durante toda a vida, fez crítica de artes plásticas, crítica literária e musical para vários jornais e revistas. Em 1925, colaborou na seção “Mês Modernista” do jornal A Noite, na revista A Ideia Ilustrada e como crítico musical para o Diário Nacional, de São Paulo; em 1930 e 1931, escreveu crítica de cinema para o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, e para A Província, do Recife; em 1941, fez crítica de artes plásticas em A Manhã, do Rio de Janeiro; em 1954, publicou De poetas e de poesia (reunião de textos de crítica); em 1955, começou a escrever crônicas para o Jornal do Brasil; de 1961 a 1963, escreveu crônicas semanais para o programa “Quadrante”, da Rádio Ministério da Educação; de 1963 a 1964, para os programas “Vozes da Cidade” e “Grandes poetas do Brasil”, da Rádio Roquette-Pinto. 

Como crítico de arte, Manuel Bandeira revelou particular afeição pelas velhas igrejas coloniais da Bahia e de Minas Gerais, pela arte arquitetônica dos conventos e dos velhos casarões portugueses da Bahia e do Rio de Janeiro, e pelas formas singelas das mais humildes igrejas do interior. 

Como crítico de literatura e historiador literário, revelou-se sempre um humanista. Consagrou-se pelo estudo sobre as Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, pelo esboço biográfico Gonçalves Dias, além de ter organizado várias antologias de poetas brasileiros e publicado o estudo Apresentação da poesia brasileira (1946). Em 1954, publicou o livro de memórias Itinerário de Pasárgada, onde, além de suas memórias, expõe todo o seu conhecimento sobre formas e técnicas de poesia, o processo da sua aprendizagem literária e as sutilezas da criação poética. Sua obra foi reunida nos dois volumes Poesia e prosa, José Aguilar, em 1958, contendo numerosos estudos críticos e biográficos. 

Foi como poeta que Manuel Bandeira conquistou sua posição de relevo na literatura brasileira, mas se dedicou também à prosa, crônicas e memórias. Em 1938, Manuel Bandeira foi nomeado professor de Literatura do Colégio Pedro II.  

Terceiro ocupante da cadeira 24, na Academia Brasileira de Letras, foi eleito em 29 de agosto de 1940, na sucessão de Luís Guimarães, e recebido pelo acadêmico Ribeiro Couto em 30 de novembro de 1940. Recebeu os acadêmicos Peregrino Júnior e Afonso Arinos de Melo Franco. 

Manuel Bandeira faleceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de outubro de 1968. 

Fonte: Academia Brasileira de Letras 

Obras de Manuel Bandeira

A Cinza das Horas, poesia, 1917 

Carnaval, poesia, 1919 

O Ritmo Dissoluto, poesia, 1924 

Libertinagem, poesias reunidas, 1930 

Estrela da Manhã, poesia, 1936 

Crônicas da Província do Brasil, prosa, 1937 

Guia de Ouro Preto, prosa, 1938 

Noções de História das Literaturas, prosa, 1940 

Lira dos Cinquenta Anos, poesia, 1940 

Belo, Belo, poesia, 1948 

Mafuá do Malungo, poesia, 1948 

Literatura Hispano-Americana, prosa, 1949 

Gonçalves Dias, prosa, 1952 

Opus 10, poesia, 1952 

Intinerário de Pasárgada, prosa,1954 

De Poetas e de Poesias, prosa, 1954 

Flauta de Papel, prosa, 1957 

Estrela da Tarde, poesia, 1963 

Andorinha, Andorinha, prosa, 1966 (textos reunidos por Drummond) 

Estrela da Vida Inteira, poesias reunidas, 1966 

Colóquio Unilateralmente Sentimental, prosa, 1968 

A poesia em Bandeira

O estilo de Bandeira é simples e direto. 

Foi convidado a participar da Semana de Arte Moderna de 1922. Não compareceu mas deixou o poema Os Sapos para ser lido no evento. 

Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra. 

Sua poesia, longe de ser uma pequena canção terna de melancolia, está inscrita em um drama que conjuga sua história pessoal e o conflito estilístico vivido pelos poetas de sua época.  

Cinza das Horas apresenta a grande tese: a mágoa, a melancolia e o ressentimento enquadrados pelo estilo mórbido do simbolismo tardio. Carnaval, que virá logo após, abre com o imprevisível: a evocação báquica e, em alguns momentos, satânica do carnaval, mas termina em plena melancolia. 

 Essa hesitação entre o júbilo e a dor articular-se-á nas mais diversas dimensões figurativas. Se em Libertinagem, seu quarto livro, a felicidade aparece em poemas como “Vou-me embora pra Pasárgada“, onde é questão a evocação sonhadora de um país imaginário, o pays de cocagne, onde todo desejo, principalmente erótico, é satisfeito, não se trata senão de um alhures intangível, de um locus amenus espiritual.  

Em Bandeira, o objeto de anseio estará sempre envolto em névoas e fora do alcance. Lançando mão do tropo português da “saudade”, poemas como Vou-me embora pra Pasárgada e tantos outros encontram um símile na nostálgica rememoração da infância, da vida de rua, do mundo cotidiano das provincianas cidades brasileiras do início do século. O inapreensível é também o feminino e o erótico. Dividido entre uma idealidade simpática às uniões diáfanas e platônicas e uma carnalidade voluptuosa, Manuel Bandeira é, em muitos de seus poemas, um poeta da culpa. O prazer não se encontra ali na satisfação do desejo, mas na excitação da algolagnia do abandono e da perda.  

Em Ritmo Dissoluto, seu terceiro livro, o erotismo, tão mórbido nos dois primeiros livros, torna-se anseio maravilhado de dissolução no elemento líquido marítimo, como é o caso de Na Solidão das Noites Úmidas. 

Esse drama silencioso surpreende mesmo em poemas “ternos”, quando inesperadamente encontram-se, como é o caso dos poemas jornalísticos de Libertinagem, comentários mordazes e sorrateiros interrompendo a fluência ingênua de relatos líricos, fazendo revelar todo um universo de sentimentos contraditórios. 

Em Estrela da Manhã, Lira dos Cinquent’anos e outros livros, as experiências da primeira fase darão lugar ao acomodamento do material lírico em formas mais brandas e às vezes mesmo ao retorno a formas tradicionais. 

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