DESTERRO, de Raquel Naveira

Raquel Naveira nos apresenta crônica do exílio e do peregrino em sua busca por pertencimento. A escritora mato grossense é escritora, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infantojuvenis.

DESTERRO

RAQUEL NAVEIRA

             Que triste é a pena de desterro, de exílio, de banimento. A expulsão da pátria que amamos para um lugar de solidão, de isolamento, de retiro ermo. Passar de um estado para outro é assustador. Principalmente aquele hiato que é o tempo de nos instalarmos em uma nova realidade, como o peregrino que finca uma tenda no deserto. Não quero baixar muito meu pensamento, nem ter desejos desmedidos. Quero apenas, esta noite, observar as chamas da fogueira e aquecer meu coração.

           Vêm-me à mente as palavras de uma antiga oração: “…e depois deste desterro…” Como será feita a travessia para o Céu? Esta Terra é nossa verdadeira casa? Teremos um canto onde recostar a cabeça? Somos viajantes, “degredados filhos de Eva”? Espíritos desestabilizados, de índole má? Trouxemos com nossas corrupções o desequilíbrio energético a este planeta?

           Quantos poetas choraram na amargura do exílio. Talvez o mais famoso de todos os poemas sobre esse tema no nosso imaginário seja “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias (1823-1864). O poeta relembra a palmeira de sua terra, onde cantava o sabiá. As aves, as belezas e primores. Suplica a Deus que não morra, antes de voltar para seu rincão. Pensar que retornava, depois de muito tempo, ao Brasil, num navio, próximo à nossa costa, quando a embarcação afundou. Salvaram-se todos, exceto o poeta que, esquecido em seu leito, afogou-se. Tinha quarenta e um anos, trazia na bagagem a renúncia dolorosa de um amor impossível e a chaga de uma saudade. Tudo se foi na onda de um último adeus. Engolido pelo mar, túmulo imenso como seu talento. 

           O trágico poeta Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Nossa Senhora do Desterro, primeiro nome da cidade de Florianópolis, ilha de Santa Catarina. As correspondências oficiais e as cartas de navegação da época o comprovam. Depois o lugar se chamou simplesmente “Desterro”, o que desagradava a muitos, pois essa palavra tinha uma carga negativa, de desonra.  E assim foi para Cruz e Sousa, o Cisne Negro. Filho de escravos alforriados, cresceu sob a tutela e educação refinada de seu ex-senhor. Culto, o poeta aprendeu francês, latim, grego, dirigiu o jornal Tribuna Popular, onde combateu a escravidão, o racismo, o preconceito. A poesia social, no entanto, não fazia parte de seu projeto literário. Seus poemas eram musicais, sensuais, às vezes desesperados, outras vezes suaves, nebulosos, cheios de brilhos. Mas um anjo sem piedade rondou seus caminhos: quatro filhos mortos por tuberculose; a esposa, Gavita, enlouquecida; a pobreza, a miséria e a humilhação como consequências do trabalho negado. Foi recusado ao posto de promotor de Laguna por ser negro. No meio de uma viagem, sentiu-se mal. Morreu sem ar, em Minas Gerais. Seu corpo foi transportado para o Rio de Janeiro em um vagão de trem, junto com os cavalos. Desterrado.

Também Camões (1524-1580), no exílio, longe das torres e castelos de Portugal, comparou-se ao poeta da Antiguidade Clássica, Ovídio (43 a.C.- 17 ou 18 a.C.), que cantara em Desterro, a viragem da fortuna, a desdita e, ao mesmo tempo, a consolação da poesia, a certeza da glória futura, imorredoura. Que versos pungentes escreveu Ovídio em seu desterro. Ele que era brincalhão, ardoroso, pagou caro, em confins gelados, sua libertinagem em louvor de Vênus e Eros. Em cânticos sofridos, queixou-se até de ter nascido. Contemplava o curso das estrelas, via os peixes no mar, as feras no monte, os rios de cristal e escrevia versos arrependidos, entre lágrimas. Afastado para sempre de um bem que possuiu outrora. A mudança fez sua trajetória frágil e transitória. E Camões, seu discípulo, identificou-se com o mestre desterrado na aspereza daquelas terras bárbaras.   

Causa-me arrepios lembrar que os inconfidentes presos foram desterrados para a África, onde morreram. Exceto Tiradentes, enforcado pelo crime de lesa-majestade, após três anos de cárcere e, depois, esquartejado. Por certo, uns padeceram mais que outros, passando dificuldades e privações. Alguns logo sucumbiram na depressão e nas doenças tropicais. Outros exerceram cargos e ofícios, espalhados por Moçambique, Luanda, Guiné e Cabo Verde. Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), o poeta romântico de Marília de Dirceu, casou-se com uma viúva, teve filhos, trabalhou como advogado a serviço de senhores negreiros. Os inconfidentes…todos proscritos, apanhados no laço da desgraça.   

Que pena dura a de termos sido expulsos de uma vida plena no Paraíso. Mas, mesmo neste desterro, mesmo em perigo, quando escrevo, eu me sinto feliz. 

(Este texto será publicado na revista Conhece-te, de Minas Gerais, editada por Marcelo Pereira Rodrigues) 

Criaturas do Mar e Tartaruga Avó por Raquel Naveira

Escritora, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, Raquel Naveira é autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infanto-juvenis.

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