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MARCELO NIETZSCHE

FILOSOFIA DA COMPOSIÇÃO DE UMA COMPOSIÇÃO

ou supurando a áurea mágica ou suturando a aura

tenho febre 
um coração 
monocórdico; 
descargas 
liberam 
visões 
 
            Eis um poema! Independente se bom, ruim ou mediano. Ou para além de qualquer tipo de julgamento. Eis um poema! 
            E o que ele diz? O que diz não dizendo? Ou que ele tenta esconder – deixando visível? Sim. Aparentemente, tudo é visível.  
            E por que essa busca no poema? Por que esse se arremessar em direção tentando encontrar um sentido? 
            Este é o princípio!  
            Atualmente, quando lemos, conversamos, não se tem, por costume, tentar encontrar um sentido naquilo que nos está sendo comunicado. Tenta-se dotar um sentido. Isto é, em termos, quem é comunicado diz qual é o sentido que quem comunicou quis dar. Por que? 
            Basicamente porque nós não nos comunicamos mais … nós informamos, nós dizemos …. (O ouvido se necrosará por desuso?!?) 
            A poesia quer ser admirada, esmiuçada, apalpada por todos os lados; ela quer um olhar e um ouvido incessantemente nela. Ela quer ser o objeto, o sujeito, o verbo de estudo. Ela quer, ela precisa, que se lancem em direção a ela. Mas … esse novo crânio sem orelha deseja trazê-la, às vezes pescando com anzol ou tarrafa, outras com explosões … que trazem o fedor dos peixes e organismo mortos …. (é a negação do outro fazendo o cadáver) 
            Ou não se nega o outro. Ou se nega. Ou se elimina tudo pelo outro, por sua prevalência. Mas não qualquer um … subvertendo Rimbaud: “O outro é eu”. Reconhecemos o outro no que ele nos é nós! Mas a gozação é que para isso teria-se que mirar o outro, o que existe além. Mesmo que só para reafirmar a si mesmo. 
            E quem seria? O texto? O autor? A obra é diferente da soma das partes do autor – dos elementos vividos, pensados, conjecturados, vivenciados, projetados. Ela tanto pode ser maior quanto menor. O autor não se restringe à obra. Esse vórtice! Para esse vórtice que se mira! 
             
            E A COMPOSIÇÃO? 
            Contexto: estava em um ônibus ouvindo música no earphone indo para o Ratos Di Versos[1]; como faço quinzenalmente, ou seja, era algo relativamente comum. O dia estava fresco, talvez por isso, o ar-condicionado do ônibus estava ligado. Parecia estar regulado em uma temperatura mais baixa só porque não estava cheio. 
            De repente, no caminho, sinto a diferença de temperatura do meu corpo em relação ao ambiente : estou febril … seria uma dúvida ou uma certeza? pode ser só uma coisa na relação com a temperatura mais baixa do ônibus, mas teria eu que tornar explícito onde eu estava; porque estava; a temperatura externa mas interna ao ônibus. Dizer febril é como se falar de algo que não é como sendo e que pode ser que nunca seja. E estou significa ser, quer dizer, encontrar-se algo em determinadas condições ou estados. Tudo muito vago. Tinha que ser algo mais concreto; físico e constante, mesmo que sabendo temporário, como a minha percepção. 
(tenho febre) 
            Nessas ocasiões, físicas, de febre, o coração acelera, mas o meu estava compassado. É uma característica minha: batimento cardíaco baixo, apesar de arritmias, e recuperação rápida do mesmo. Era um contraponto físico que eu sentia … uma palavra surge enquanto tentava situar esse equilíbrio cardíaco: monocórdio;  que significa um instrumento de uma só corda, mas também, talvez por isso, se associa com algo monótono, constante, uma platitude…. e um coração monocórdico … Não! muito longo o verso; não transmite a sensação desejada. Quebrá-lo; as palavras são essas mesmas! 
(e 
um coração 
monocórdico) 
            Fechei meus olhos na música. Percebi que as arritmias fragmentavam essa noção de algo incansável e contínuo. Eram lampejos. Arritmias são descargas. Rupturas são possibilidade de se ver, de se ir além. Além do agora. Além do prévio.  
(descargas) 
            No fluxo deveria entrar possibilitam, mas não. Não entendo que haveria uma facilitação. Além disso, é um verbo bitransitivo, ou seja, possibilita algo a alguém; era algo mais direto pode-se visualizar, ou não, esse possibilitar e no caso de não não haveria um alguém e aí era toda uma dimensão projetada para um oco … é que se exerce ou não; que se pode ou não … permitem! uma respiração e uma rápida passada de olhos na memória  
(liberam) 
            O que essas rupturas nas constâncias liberam? Simples. Não uma história, uma jornada para ser descrita. Simples. Uma(s) possibilidade(s). O devir – venha ou não. 
(visões) 
            Poesia, entre muitas coisas, trabalha com a noção de montagem e aqui a ordem dos fatores altera o produto. Estou febril e um coração monocórdico, não funciona… teria que altera para: estou febril e tenho, ou meu coração é; e aí o texto não fica fluído. Porém indo montando ele mentalmente, enquanto não chega meu ponto, vou estruturando ele em palavras. E palavras, palavras encadeadas, tem o seu ritmo; o  que facilita a montagem. 
            Cheguei no meu ponto. O texto também. Era o suficiente. Sem perceber ainda enredado por uma movimentação de haiku. O constante / a ruptura (contraste)  / reestruturar-se  
            “Mas coração é mais que um órgão do corpo, um músculo”, alguém pode conjecturar …  E aí começa a interpretação ou a introjeção? 
            Mas isso é uma ilusão. O texto não foi se construindo em encadeamentos lógicos. Em suaves solavancos e instantes em que o ônibus parava em um sinal e eu me apressava em escrever algo. Esses movimentos já estão interiorizados. Nada de epifanias mas um processo, muitas vezes subliminar, que vai se articulando com outras potências em nós. Não chega a ser uma fórmula … aquela seqüências de artifícios, recursos, imagens, ritmos, que se lança mão quando não se tem nada. É um saber esvaziado do saber.  
            Toda a explanação construtiva, o discorrer das opções, das escolhas feitas; tudo isso é algo a posteriori tentando dar um formato ao prévio. 
    
Marcelo “Nietzsche” Borde 
 
[1]     evento anárquico centrado em poesia que se realiza na Lapa e do qual faço parte. 
Morri. Era 28 de setembro de 1964. 
Morri. É verdade. 
Todos morremos ao menos duas vezes na vida. 
Não … não guardo memória nenhuma desta. 
Mas morri. Era 28 de setembro de 1964. 
Meu corpo não se encontrava mais lá … 
vestígios de uma atrocidade: 
poças de tripas, sangue, fezes! 
De antes. Por uns tempos restaram fotografias 
bicolores, preto-branco, ferrugem e desgaste; 
foram se apagando … 
depois … Mais nada. Registros. 
Números. Letras. Coisas que significavam outras. 
Agulhas me furaram. Espancado. 
O ar violentou meus pulmões … 
são registros; dados; nenhuma recordação em si. 
Chorei! 
O que eu era estava morto. 
Definitivamente! 
Evidências sem um corpo! Nenhum corpo! 
Eu estava morto. 
Era 28 de setembro de 1964. 
O nascimento: o princípio da morte. 

Formado em Jornalismo, poeta, pensador e polemista. Já publicou cinco livros, sendo três coletâneas. Desde 2006 evento Ratos Di – faz parte do coletivo Ratos di Versos, já denominado como o encontro mais marginal de poesia, por não se querer se quer ser margem, um limite. E antes de perguntarem, Nietzsche é um apelido que acompanha desde os quinze anos. nietzschemarcelo@gmail.com 

“gelo liso 
um paraíso 
para quem souber dançar” 
        f.w. nietzsche  
 
Uma folha um livro é uma publicação origami com o propósito de fomentar a poesia e a leitura. Para descarregar, compartilhar, imprimir e levar para onde quiser, com a condição de não alterar o formato e de manter os créditos correspondentes. 
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