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PANDEMIA

No conto de Marcello de Oliveira Pinto, tendo o Rio de Janeiro por cenário, somos transportados para um futuro não muito distante para acompanhar uma ficção nascida e ligada indissoluvelmente ao presente.

“o apelo que ouvimos se dirige antes a toda a humanidade.

Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não.

 Aproveitemos enquanto é tempo”

 

Esperando Godot

Rio de Janeiro, 13 de março de 2025. Nesta mesma data, cinco anos atrás, a nossa cidade entrava em quarentena e começava a vivenciar a maior tragédia de sua história… 

 

O jornal matutino no rádio o fez despertar. Levantou, cumprimentou sua tia e saiu. Viu o dia amanhecendo com aquela luz sépia e as poças que lembravam a chuva da madrugada que aguou Vila Isabel. Caminhou como sempre pela Jorge Rudge em direção à Luís de Matos. Passou pelas mesmas casas velhas de sempre e lembrou do bar que se travestia de mercearia e onde, naqueles tempos de isolamento, segundo sua tia, os “abençoados” sentavam pra tomar uma cachaça justificada pela necessidade de fazer compras. Lembrou do seu próprio pai que também fazia a mesma coisa. Agora o estabelecimento estava fechado e sua fachada perdia a cor. Ele passava pelas casas antigas vendo seus moradores com feições tristes. Várias placas de imobiliárias gritando “vende-se” também fenecendo com o sol e a poluição. Que bom que aquilo tudo era só passagem e ele sente que não pertence a aquele lugar.  

Quando notou já havia atravessado a rua e estava em frente ao muro da UERJ. A memória dela sempre retorna quando ali chega. Ele aperta o passo rumo à estação Maracanã, evitando levantar os olhos. Sempre que olha imagina ela pulando. Já não se falavam desde que ela tinha ido morar com o cretino do professor. Ela ligou pra ele no dia, pediu para vê-lo. Ele foi rude. Ele aperta mais o passo. E começou a faltar ar, como se aqueles prédios acinzentados estivessem o cercando, apertando, um bullying de cimento e aço que o deixava tonto. Respire, respire, respire, lembrando de não exagerar por conta da insuficiência que ganhou de presente do vírus. Ele finalmente entra na estação e deixa para trás sua história recente. Que bom que aquilo tudo era só passagem. Já mergulhado no metrô sentiu o conforto habitual, a sensação que tudo está bem e funcionando. Aquele lugar nem parece o Rio de Janeiro, todos dizem. E está tudo funcionando como deve ser. E tudo funcionando é algo que se tornou muito incomum depois de 2020. Entra no vagão, acomoda-se e esconde os pensamentos na tela do celular.

Chega ao trabalho, onde ocupa uma vaga para assistente geral que, em resumo, cuida de várias tarefas pequenas e aborrecidas que o chefe não faz, numa pequena empresa que administra diversos grupos coletivos de seguros de saúde e de vida. “Você terá uma grande carreira aqui! vamos dominar o mercado”. “Não contratamos por CLT, o mundo pós pandemia pede um novo perfil de colaborador que precisa mostrar seu talento e conquistar seu futuro”. “Nós oferecemos uma conta individual do spotify para os novos funcionários e folgas a cada dois sábados trabalhados”. Que bom que isso tudo é só passagem.   

  

Ele liga o computador e vê as notícias do mercado financeiro. Esse era seu sabor predileto todas as manhãs. Afinal ele é um homem do mercado, ávido por imitar todos os movimentos peristálticos dos grandes investidores, e assim partia para os canais do youtube para ouvir seus deuses do mercado. Ele sabia que o momento era aquele e seu sonho de faturar seu primeiro milhão apareceu em meio ao crash total da bolsa durante a pandemia. Era a hora de aproveitar, pois é na crise que se fazem as fortunas. Ele apostou na bolsa tudo que seu pai deixou, mais o dinheiro da venda do apartamento na Tijuca onde moravam  (mesmo dividindo o dinheiro com seu irmão, que não queria de forma alguma se desfazer do bem naquela recessão pelo preço ridículo que ofereceram, ainda foi uma boa quantia pra começar um portfólio). Ele fez o curso e contratou a mentoria do coach mais badalado do momento e seguiu todos os 5 passos para o sucesso. Estudou todos os sites sobre o assunto, dedicou-se ao seu futuro de forma intensa e deixou tudo que o atrapalhava de lado, inclusive sua graduação. Aprendeu como falar com seus iguais sobre o mercado financeiro nos chats da internet, argumentando com propriedade sobre o quão as LCI e LCA têm se tornado mais acessíveis, como se dar bem com a alavancagem no day trade, quais as top picks dos gurus e por aí vai. E todo o dia ele liga o PC, vê as notícias e vai conferir qual a estratégia do dia. Mas o mercado não está ajudando. Ele ainda não está com a mão boa e o jogo não o favoreceu. Não é culpa dele, pois fez os lances certos. Mas a mão do mercado, esse croupier maldito, não o ajuda. Já perdeu muito, mas o tempo fará com que ele tudo recupere. E o irmão podia bem ajudar! Bem, esse momento é passageiro. Ele olha para seus colegas e sabe que não ficará ali muito tempo. Ele sabe o quão diferente daquele povo sem perspectiva ele é. Ele faz a diferença! Sentindo-se energizado e proativo, pega o celular pra ligar pro irmão. Quem sabe…  

II

Caralho, como alguém pode gostá de Copacabana! Mas num tem jeito, eu trabalho aqui, né? E quase todo dia vou na Miguel Lemos, lembra? perto da onde a gente se conhecemos. Isso, eu tô ainda no aplicativo, entregas pelo aplicativo. Eu vou ali pra essa velha senhora. E cara, é doido. Achava que era só restaurante, pegá as quentinha e levá. Cara, vou no supermercado, lavanderia pra pegar roupa, buscar cachorro depois do banho nas pet shop, banco pra pegar dinheiro, essas porra toda. Mas como não se pode reclamá e o melhó é agradecê pelo que se tem, amém, e trabalhá pra fazer tudo dá certo como disse o nosso Capitão, tamos na luta. Então, essa velha, que tipo já tem o meu telefone, é outra coisa. Ela é maió estranha, cara, tem um sorriso sei lá, assim, sabe, comé que eu vô dizê, sei lá, meio de doido, os olho sempre parece que vai chorá. Não, ela é sempre gente boa. Ela faz questão de atendê a porta, sabe. Não, não tá sozinha não, tem uma dona lá com ela, que tá sempre tipo sentada no sofá vendo televisão, fazendo a unha, ou no zap. Muito! dá pena: ela me abraça, aí outra vez fica distante e lembra que é pra ficá longe e limpá tudo com álcool. Outro dia ela me deu uma máscara dessas de médico já velha e cheirando ruim. Ela disse, tipo “meu filho, já falei muitas vezes pra você não deixar de se proteger”. fiquei muito sem graça. Aí a moça veio e gritou que isso já tinha passado e tal. Eu perguntei, a moça disse que tava caducando. Ela achava que eu era o filho dela que não ia mais lá e tal. A velhinha achava que eu era ele e que tinha voltado, que eu estava no estrangeiro dando aula lá de não sei o quê. A moça disse que o filho dela é professô, um babaca doidão que mora até perto, mas que não vai lá. Cara, maior pena. A moça disse que ela tinha um lance de medo de saí de casa. Se tremia toda, falava que ia morrê, que todo mundo tinha morrido, que ela ia se contaminá, e entra em crise, grita, se machuca toda. Triste. Ela também foi professora, cara. Acho que esse povo é tudo doido. Essa coisa de estudá muito é de deixá maluco mesmo. Minha irmã entrou nessa de estudá, ir pra faculdade e tal. Minha mãe falou pra ela trabalhá. Se deu mal. Foi mora com um professor. Lá é tudo doido e maconheiro, tu num lembra da putaria que o povo postou no whatsapp. Só Jesus na causa. Minha irmã caiu nessa, acabou na vala cheia de bagulho na cabeça. Te contei, né, ela se matô, cara, pulou lá da UERJ. Foda. Cara, comendo alguma coisa agora, tô escondido aqui no metrô. É cara, metrô é tranquilo, né. Sabe como é que é né, mano, as melhores coisas do Rio são os buraco! tá fechado então hoje? tamo junto! Vou desligar e voltar pra rua. Valeu.

III

Na vitrola Tristão e Isolda, sua ópera favorita de Wagner. Ele sempre achou, contudo, o prelúdio especialmente decepcionante. Principalmente os “princípios morais” de Tristão, que se mantém distante da donzela prometida neste trecho. Wagner tinha inventado essa postura de afastamento que Tristão assume para com Isolda, algo que não existe no poema de Gottfried. Coisa de uma moral sem razão, que, mesmo vazia de sentido, se espalhou como uma doença em diversos momentos da história da humanidade, reprimindo aquilo que resume a própria natureza humana: o prazer. Incomodado, o professor levantou e foi trocar o vinil. Sua mão já estava tremendo e nem havia percebido. O que vai ouvir agora? Algo que possa acalmá-lo dessa ansiedade. Algo que não o faça pensar, que alivie a sua mente, que não o afogue nesse poço de intertextualidades que atormentam a sua existência. O celular toca. Merda, a encomenda! começou a tremer e a sentir uma secura intensa na boca e correu até o aparelho. Era apenas a acompanhante da mãe idosa. Não atendeu. Apanhou um cigarro, um uísque e foi escolher a música. Preferiu agora uma banda de prog-fusion da Estônia. Queria encher os ouvidos com algo forte! Puxou a raridade de sua coleção de vinil. A Banda, Kaseke, cujo LP em questão, o único, de 1983, foi um achado numa loja nas redondezas da Alexanderplatz em Berlim. Foi ela que achou, na verdade, lembrou. A música começa e ele vai até a janela ver a rua e puxa a cortina para olhar a portaria do prédio. Ele pensa nos acordes, na melodia. Quer focar no prazer dos sons e controlar a ansiedade. Ficar em casa, relaxar, ter paciência: essas nunca foram suas maiores qualidades (e ele lembra daquela ideia louca de quarentena que ele, e ela, nunca respeitaram mesmo). Foi olhar a janela (eu já fiz isso agora mesmo ou não?), puxa a cortina e, como de uma ferida aberta, escorrem palavras da memória

“Afastai nas janelas a cortina breve   

Que menos que à luz a vista só proscreve!   

Olhai o vasto campo, como jaz luminoso”  

E essas palavras trazem a menina completamente de volta. Ela anda de novo pela sala, seu corpo brilhante, se movendo nua na direção que ele ordenava. Seu coração jovem e ávido de prazeres, aceitou ser guiada, pois era exatamente o que queria: um herói, um cavaleiro medieval e viril a resgatá-la de suas origens humildes e transformá-la numa princesa! Mas que azar o dela encontrar esse cavaleiro cuja armadura era apenas látex transparente. Aquele a lhe ensinar as coisas do mundo, como um pai que tanto lhe fazia falta, a lhe acariciar a alma e a vulva. E ele assim o fez. Cantou-lhe seu Epithalamium, tão brutal, regado a citações potentes que a encantavam, sob o efeito do azul poderoso, dos ácidos, dos destilados e dos arrepios que, mesmo nascendo do medo, antecipavam o prazer de várias formas impensáveis. Ele fez dela o que quis. Amante, rampeira, boneca, moeda de troca. E o vírus caiu como uma luva para justificar a urgência de todos os desejos, todas as loucuras. Não existiam limites, pois tudo era tão brutal e natural que a perversidade se tornou rotina e quase não havia diferença entre a dor e o prazer. Quase.    

  

“Mais um anjo pulou aqui da nossa UERJ” Aumentou a música ainda mais! Uma moto parou na frente do prédio. A encomenda! dessa vez o “avião” não demorou muito. “Ela morava com você, não é? O que aconteceu com ela?” Ele desceu, e voltou correndo. A imagem do corpo caído estava voltando era preciso fechar as cortinas da memória.  “Ela era um tesouro, como você não percebeu?” A picada no braço não doía, mas justificou o grito estridente que se escondeu no meio das melodias potentes que saiam da vitrola.  

IV

[O telefone celular toca. Ele olha e não atende.  Era seu irmão. Provavelmente tentando pedir dinheiro para seus investimentos]. 

– Quem era?  

– Meu irmão.  

-Por que você não atendeu?  

-Não tava com paciência.  

-Vocês meninos! posso beber?  

-Você não está grávida?  

-Eu acho. Não sei de verdade. Tá só atrasada mesmo. Posso beber?  

[Ele não responde. Ela vai em direção a garrafa em cima da mesa ao lado do sofá, exatamente onde estava o celular dele. Ela abaixa com um copo na mão, mas na verdade pega o telefone]. 

-Você pode desbloquear o telefone pra eu ver, por favor. Por que você está bloqueando o telefone?  

-Sempre teve bloqueio…Toma aí.  

[Ele pega o controle da televisão e procura entre os muitos títulos de um dos vários aplicativos de filmes e séries que assinam. Como não achou nada interessante, deixou no canal de notícias. Depois de uns minutos vasculhando o telefone, ela coloca um pouco da bebida no copo]. 

-Você está me olhando daquele jeito. 

-Não sei que jeito é esse que você inventou que eu te olho. 

-Não é invenção, você sabe muito bem. 

-Não sei de nada. 

-Claro que sabe, toda manhã quando você levanta e vai ao banheiro e fica parado lá no espelho sem fazer nada. Te vejo olhando pra mim através do espelho. Você olha com esse olhar que parece…olhar que não tá vendo nada, e de repente você começa a fazer suas coisas, volta a vida, como se tivesse feito um download da sua alma. 

-Download do quê? 

-Você nem presta atenção em mim, tá vendo. Download da alma! 

-Que doideira é essa? 

-É isso mesmo. Parece que sua alma vai pras nuvens depois que você fica essas horas em frente a tv, com a roupa da rua – e Deus você sabe que a gente combinou desde a época da pandemia de deixar a roupa da rua na área quando a gente entra em casa. 

-Deus! 

-Você levanta desse sofá e parece um robô, sem alma, toma teu banho e deita do meu lado, só a carne, sem nada. Vazio. 

-Para com isso. 

-NÃO VOU PARAR PORRA NENHUMA! 

  [Ela joga o copo na parede. Ele olha sem muita surpresa]. 

-Você é um nada, não tem nada aí dentro. O que rola exatamente, conta? é a bebida que te deixa assim?  É voltar pra casa? É a minha presença? Fala! pra onde vai tua alma? 

-Vou catar o copo. 

-Para e me escuta, porra! que merda.  

-Eu acho que você tá louca. 

-NÃO ME CHAMA DE LOUCA! Você é que é um doido desgraçado. Você não presta atenção em mim, nunca prestou. Eu sempre falei pra você tirar a porra da roupa quando a gente chegasse da rua, você CONTINUA FAZENDO A MESMA MERDA!  

[Ela começa a chorar]. 

-Meu Deus, meu Deus, não fica assim… não tem mais contaminação assim. 

-Você podia ter feito o que te pedi. Por todos nós!  

[Silêncio. Ele se aproxima dela]. 

– E vem você de novo me olhando desse jeito vazio! Pra onde vai o teu desejo? pra onde vai a tua vontade? Por que isso? Não, não, já sei. Na verdade você nunca teve vontade de nada, você sempre só se arrastou pela tua vida, só deixando os outros te dominarem, deixando os outros fazerem de você gato e sapato. Como esse teu irmãozinho que só te ferrou e só te liga por interesse. 

– Para com isso, você já me ofendeu demais com esse tipo de coisa.  

– Mas essa é a verdade, você não tem disposição pra nada, não tem pulso. As pessoas esperam isso dos homens, as pessoas esperam isso de você. O que você acha que você é? você é nada, por isso ninguém te respeita, ninguém te dá valor, por isso que ninguém… por isso é que te pisam o tempo inteiro, por que você não sabe dizer as coisas. Olha aí, você nem atendeu aquele babaca do teu irmão. Sabe porque? por que você não sabe dizer não, você não sabe dizer sim, você é um merda. 

 – Olha, a gente não vai entrar nisso agora. Não sei por que você ta assim. Sei lá. Pensa. Vamos tomar um banho, descansar. Você quer ver alguma coisa na televisão? 

 – QUE PORRA DE TELEVISÃO É O CARALHO! Eu quero que você me escute, quero que você me sinta, quero que você faça as coisas que eu digo, eu quero que você seja um homem de verdade, não isso. 

 – Para, por favor. 

 – Toma uma atitude, seja homem, honra as tuas calças seu filha da puta, assume o que você fez e sai da minha vida, SEU ASSASSINO DESGRAÇADO.  

[Ela avança na direção dele, que a contém]. 

–  EU NÃO MATEI TEU PAI, PORRA, EU NÃO TROUXE A PORRA DO VÍRUS PRA DENTRO DE CASA, QUE INFERNO.  

 – SEU ASSASSINO FILHA DA PUTA!! 

[Ele a agarra pelos braços com força e a empurra contra a parede]

 – Ele ia pra rua, ele saiu o tempo todo da quarentena, que merda. Eu não sou assassino. VOCÊ ESQUECEU QUE MEU PAI MORREU TAMBÉM, PORRA!

 

[Silêncio].

[Da TV se escuta a apresentadora do jornal. “Rio de Janeiro, 13 de março de 2025. Boa noite. Começamos hoje uma série de reportagens mostrando como a cidade do Rio de Janeiro, depois dos terríveis dias da pandemia do Corona vírus renasceu e voltou a ser a cidade maravilhosa que sempre conhecemos”].

eu-2020-6-300x300 Pandemia Prosa e Poesia e Vice Versa

Marcello de Oliveira Pinto é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Seus interesses transitam pelos estudos literários e suas diversas configurações histórico-contextuais e sua interseção com o ensino de línguas.

Foi um dos organizadores do livro Estudos de Transárea em torno do conceito de “literaturas do mundo” lançado recentemente pela editora Class de Porto Alegre e publicou textos ficcionais no blog https://www.cornflakepromises.hpg.com.br 

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