Poemas de Daniel Lage

Daniel Lage é operário na área de tecnologia da informação, educador popular, sambista, militante e poeta. Escritor, abandou as publicações de gaveta para em 2021 lançar seu primeiro livro de poemas “Florações”, pela editora Trunca. O livro está à venda no site www.trunca.org.

Por enquanto

Há uma vitrola.

Na vitrola um disco 

girando sob a agulha,

mas o som não sai.

 

Sei que é um disco inédito, que

contém grandes composições

e cada faixa

será inesquecível.

Encontrarão nele

a expressão mais bela

e necessária

desse tempo mudo.

 

Sei de tudo isso,

pois só de aproximar os ouvidos da vibração da agulha, 

todo corpo vibra 

nos relevos do vinil.

 

Há uma vitrola.

Na vitrola um disco

girando sob a agulha,

mas o som não sai.

 

As caixas de som

estão bem encaixadas.

O botão do volume

está bem ajustado.

A energia elétrica

passa em abundância…

 

Mas o som não sai.

 

Camaradas, tenho que lhes dizer isso!

Há uma vitrola.

Na vitrola um disco

girando sob a agulha,

e suas faixas contém

belezas indescritíveis,

inesquecíveis e necessárias…

 

Mas, por enquanto,

é impossível escutá-las.

A poesia é um ofício

À Eloi Lage

Encaro a poesia como um ofício

qual o antigo sapateiro encara

os sapatos de sua oficina.

 

Ele, entre o cheiro de couro e cola,

colore os moldes com a costura fina,

e martela e reforça o lado da sola.

 

Um sapato deve ser delicado

para atravessar o ar como pássaro.

Um sapato também deve ser bruto,

para alavancar do chão mais um passo.

 

Meu poema vem do mesmo trabalho,

de fundir pétalas e metais duros:

para amolecer mãos de operários

e como uma bala atravessar muros.

Ela bate seu pandeiro  

Ela bate seu pandeiro

Como quem busca um abrigo

Ela soa as platinelas

Como um pássaro em perigo

Ela tira o grave do couro

Como quem abate um mamífero

 

Ela bate seu pandeiro

Como quem tem algo a dizer

Ela soa as platinelas

Como quem sabe o que fazer

Ela tira o grave do couro

Como quem se reconhece no couro

 

Ela bate seu pandeiro

Como quem opera uma máquina

Ela soa as platinelas

Como quem bate sua meta

Ela tira o grave do couro

Como quem teve seu couro tirado

 

Ela bate seu pandeiro

Como quem anuncia uma revolta 

Ela soa as platinelas

Como quem espalha uma notícia

Ela tira o grave do couro 

Como quem dá sentido ao couro

 

Ela bate seu pandeiro

Como quem chama para briga

Ela soa as platinelas 

Como quem põe por terra

patrões e panelas

Ela tira o grave do couro

Como quem fuzila o carrasco.

 

 

 

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Perfume para os dedos​

Isso aconteceu na cidade de Florações

Lá no futuro,

profundo horizonte róseo

da aurora dos trabalhadores

viveremos, eu e você.

 

Lá, no tempo dos homens,

de homens fazendo coisas,

não esse avesso absurdo

de aço, plástico e carne.

 

Onde o trabalho sem segredos

não espalha a miséria

e a total incompreensão.

Apenas trabalho e gozo do seu fruto.

 

Lá, um dia acordarei descansado

de um sono que nunca tive.

E tomado por uma animação,

desconhecida da que tenho agora,

 

irei à associação livre

dos trabalhadores livres das perfumarias,

onde decidem, pelos bons olfatos,

qual a melhor fragrância para cada ocasião.

 

E enquanto amasso pétalas

para extrair seu potente sumo,

pedirei uma recomendação:

“Qual a melhor fragrância para os dedos de um tocador apaixonado?”

 

Nesse dia, como tantos outros por lá,

passarei na associação livre dos violeiros-poetas

e me inscreverei para a noite de serenatas,

nesse mesmo dia – como tantos outros por lá,

 

te aguardarei a tarde toda ensaiando,

cunhando versos, emprestando melodias,

ganhando outras. Tão belas

quanto o cheiro no frasco secreto.

 

Quando você chegar sem as olheiras que lá nunca teve

vai sorrir ao me ver de viola na mão.

E o perfume dos dedos exalados na canção

chegarão a ti como um encanto.

 

“Estás apaixonado de novo?”

Dirá, enquanto me beija o pescoço.

E riremos um riso que nunca rimos

O riso inocente dos encantamentos

Que lá não enganam. Nem se quisessem.

Daniel Lage é operário na área de tecnologia da informação, educador popular, sambista, militante e poeta. Habitante da pauliceia desvairada há quase vinte anos, é natural de Ribeirão Preto. Cientista social, mestre em Ciência Política, foi professor do ensino superior privado durante três anos, sem nunca abandonar o ofício na área tecnológica. Músico, fincou bandeira no samba paulista, e compõe o grupo de samba Esperando o Trem, como compositor e violonista, além de participar de festivais e projetos nesse terreiro. É educador popular do Fórum Nacional de Monitores – 13 de Maio, atuando na formação política de movimentos populares e sindicatos. Escritor, abandou as publicações de gaveta para em 2021 lançar seu primeiro livro de poemas “Florações”, pela editora Trunca. O livro está à venda no site www.trunca.org

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