Poemas de Jéssica Iancoski

Jéssica Iancoski é pessoa não-binária. Escritora, poeta, artista plástica e editora. Tem participações em antologias, jornais e revistas. Já publicou no Brasil, Argentina, Colômbia, Espanha, Galiza e em Portugal. Teve o poema “Rotina Decadente” reconhecido pela Academia Paranaense de Letras, aos 15 anos. É idealizadora do Toma Aí Um Poema (podcast, revista e editora) e responsável pela primeira publicação de pelo menos 600 autores e autoras.

LITERATURA

esquecidos na mudança — deixei para trás a casa
o quarto da criança e os últimos anos da infância

justo no ano que me impôs o fim na primeira década
costuraram em mim a primeira linha cadavérica

passei a sonhar com a morte: tão serena vestido lilás
dizendo-me para deixar — também — a dor para trás

e pensei no meu irmão: tão pequeno e tão sozinho
ainda a contar nos dedos os seus primeiros medos

depois gentilmente fechei a felicidade nas pálpebras
assim: como aquele que para sempre deixa de ser

por fim, da minha criatura, transmutei um novo mundo
para que vivêssemos ingênuas crenças frente ao absurdo

ORGULHO

perguntarei a você sobre os seus motivos
para se orgulhar e você me responderá
sobre a sua inteligência riqueza e beleza

você olhará para mim e achará que sou menos
não sou a mais inteligente rica ou bonita

mas eu vi um homem rico perder a riqueza
o inteligente conhecer a demência
e a mulher mais bonita definhar a beleza

por isso na minha dor nada me falta e mesmo
que me tirem as pautas e me roubem a calma
me restará a gentileza a inocência e a alma

e quando é isso tudo aquilo que sobressalta
não é preciso de mais nada para se orgulhar

WORKAHOLIC

uma mão se estende em minha direção
e eu só vejo a garra o tapa a frustração

estou fechada em mim e carrego um silêncio
uma dor que desconheço um cansaço intenso

nenhuma palavra me penetra ou me pertence
estou trancada num passado que não me lembro

não quero ser tocada nem beijada nem cuidada
rompe em mim as marcas da infância abandonada

sou o risco no vidro a quina do móvel roído
a bagunça pela casa — uma tristeza ocupada

#BEUTIFUL

 

repetidamente — voltamos ao mesmo lugar e nada importa
nas mãos dos homens o mundo não comporta — eu repito:

nada mais importa: nem o pé de bergamotas
nem as asas da gaivota & muito menos a nossa xota

tudo o que existe é a derrota: as letras mortas
de um passado que sempre desconforta

a beutiful horta que frutifica & exporta
os donos do Brasil querem ganhar em dólar

nada mais importa — no entanto eu viverei
ao ver o homem trocar o seu nome pelo de Deus

sua face por uma máscara, seus olhos por pés de cana
seu corpo por um náutico & seu pênis por dados cibernéticos

eu resistirei para ver o potencial energético parar de fazer sentido

OMITIR-SE

Incontestável — de dentro de suas casas
poetas deliram palavras sobre salvar a humanidade

— iguaizinhos a mim: covardes!

com as duas mãos partem os livros ao meio
peneiram filosofia moderna, movem a caneta delicadamente
como se preparassem um gâteau chiffon bem levinho

óleo vegetal, ovos, açúcar, farinha,
fermento em pó e a pura essência de baunilha®
— tudo da mais requintada e clássica gastronomia!

mas nas ruas somente o cheiro a atravessar a avenida
que aos narizes dos batalhões — não passa de bolo

EUREKA

todos os dias à crase causa guerras cibernéticas
a norma como forma de dominação caquética

tudo é sintoma: na ponta da língua a lambida
no meio da língua o músculo — custa ao homem

diante do erro, engolir a saliva: que diferença faz
a grafia das palavras se a mensagem é clara

para os puritanos toda mudança é dolorosa
nos expressamos em desalinho & progredimos

o erro é fundamental: diante do ácido preceito social
existe um pronome que deveria ser evoluído —

vossa mercê, vosmecê, vancê: você.

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