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Receita de ano novo

O poeta itabirano sempre visitou os mais variados temas, acontecimentos sociais com os quais nos acostumamos culturalmente. Achamos oportuno abrir o ano com suas palavras, celebrar as vitórias alcançadas em 2019 e desejar a todos um 2020 muito feliz e repleto de amor.

RECEITA DE ANO NOVO 
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 
 
Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 
 
Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre. 

Carlos Drummond de Andrade, “Receita de Ano Novo”. Editora Record. 2008. 

Carlos Drummond de Andrade é um dos grandes escritores brasileiros, poeta, cronista e contista, o itabirano publicou uma extensa obra. Seu alcance não é por acaso, sua prosa e poesia dialogam lindamente, como dois olhos, e ainda encantam os que com ela têm contato. 

Algumas obras: 

No Meio do Caminho, 1928 

Alguma Poesia, 1930 

Poema de Sete Faces, 1930 

Cidadezinha Qualquer e Quadrilha, 1930 

Brejo das Almas, 1934 

Sentimento do Mundo, 1940 

Poesias e José, 1942 

Confissões de Minas, 1942 

A Rosa do Povo, 1945 

Poesia até Agora, 1948 

Claro Enigma, 1951 

Contos de Aprendiz, 1951 

Viola de Bolso, 1952 

Passeios na Ilha, 1952 

Fazendeiro do Ar, 1953 

Ciclo, 1957 

Fala, Amendoeira, 1957 

Poemas, 1959 

A Vida Passada a Limpo, 1959 

Lições de Coisas, 1962 

A Bolsa e a Vida, 1962 

Boitempo, 1968 

Cadeira de Balanço, 1970 

Menino Antigo, 1973 

As Impurezas do Branco, 1973 

Discurso da Primavera e Outras Sombras, 1978 

O Corpo, 1984 

Amar se Aprende Amando, 1985 

Elegia a Um Tucano Morto, 1987