03 Poemas de Lucas Bronzatto

Poemas de Lucas Bronzatto

Lucas Bronzatto é um poeta latinoamericano que, como a maioria de nós, não possui um banco. É dono de versos precisos, preciosos, cuja matéria é o agora, o tempo que se apresenta, sem embrulho, com direito a nó no estômago, arranhando o âmago e revelando o amargo. É o presente de presente e um direto de esquerda.

Aqualtune         (para a Ocupação Independente Aqualtune) Uma casa dá uma portaendereço pra conseguir escolaempregoestrutura pra estudarcadastro em posto de saúde

 

Uma casa protege da chuvade água e de xingamentosdo risco de ser queimado vivo na ruauma casa diminui os esculachos rotineiros da polícia

 

Uma casa tem cômodopra poder ficar de cama se doentepra baixar a febre da bebêpra se recuperar de cirurgiae do desgaste absurdo do trabalho

 

Uma casa sem alugueltem mesa com comidagente junta e almoço de domingouma casa tem cafétem fica um pouco maistem deixa que eu abrose não você não voltatem porta pra por a vassoura atráspra miséria nunca mais visitar

 

Uma casa tem fogão e uma chama que queima a lembrançadas ameaças de quem cobrava o alugueldos aumentos abusivos da extorsãouma casa tem porta-retratosé passado e é futuroé memória e História feita a muitas mãos Quem tem uma casa pode reformarrevolucionara própria vida, a cidade, o mundouma casa que era um prédio abandonadonão é imóvel:se movimenta, arrebenta correntes se espalha pela cidadeuma casa que era um prédio abandonadoé uma trincheira da luta de classes

 

Uma casa com janela para o centrotem economia no transportemais tempo de sonotem mais chance de empregomais arte mais bibliotecasmais respiro

 

Só pode decidir acabar com uma casaquem não sabe o que é uma casaporque nunca ficou sem casaporque tem muitas casasporque obedece quem tem ainda mais casase acha que casa é só um negócio lucrativo

 

Risadas de crianças poemas e peças de teatroonde antes só havia ecoespaço vaziovácuoe agora ordenam despejo

 

Aulas oficinas grafites assembleiasonde antes só havia ecoespaço vaziovácuoe ainda assim ordenam despejo

 

É preciso muito vazio pra se fazer uma cidade

 

O martelo da justiça burguesa destrói casasressuscita prédios fantasmaspra que agentes imobiliários etiquetem o novo preçoHERANÇA

 

Eis aqui tudo que tenhomeu único bemminha única herança:meu corpoesculpido pelo trabalhoenvergado pelo que não pude sertalhado e retalhado pela submissão forçadaOssos pouco a pouco entortadospra se adaptar à posição do corpona divisão internacional do trabalho

 

Ombros cabides de tantas camisasdessas que dizem que é preciso vestirpra trabalhar aquiArtérias afinadas de tanto “dar o sangue”que eles com seus ventríloquos do RHdesesperadamente tentam pintarcom as cores da empresapra disfarçar o vermelho em nossas veias

 

Debaixo da peleuma camada extensa de cansaço depositadoDe cada músculo retorcidopendem cláusulas de contratos de trabalho:Não contestarás;Aceitarás de bom grado toda e qualquer opressão;Nós entraremos com as máquinasvocês sairão com as lesões;Deixarão idade e levarão insalubridade;Vida fora das bordas do crachá não há de ter;

 

Eis aqui tudo que tenhomeu único bemminha única herança:um corpo máquinaduas mãos ferramentasuma cabeça em parafusoum estômago incineradouma coluna repleta de torturase sonhos de levantes diante do horrorde nossas tarefas cotidianas de sobrevivência:arquitetar planos de fugapra quando as barragens romperempra quando as caldeiras explodirempra quando as plataformas cederempra quando a água inundarimaginando quem a gente vai ajudar a escaparquando a sirene tocarse é que a sirene vai tocarse é que vai dar tempo de sair com vidae se é que é dá pra chamar de vidao que vive quem consegue sair vivoQuem sobrevive a um acidente de trabalhoé um sobrevivente de guerraNum país em que sete pessoas morrem por diaem acidentes de trabalhoquem sobrevive a um dia de trabalhoé um sobrevivente de guerra

 

Depois do maior acidente de trabalho do Brasilcórrego do feijão virou um velório permanentefamiliares enterraram pedaços de corposem caixões lacradostrabalhadores despedaçados pela lama da Valequebra-cabeças da barbárie capitalistaBrumadinho parece um cenário pós-guerrae não é coincidênciaO trabalho é uma guerraum massacreFamílias refugiadas das barragenscrianças órfãsde guerraO trem que leva a terra do Drummond pra Alemanhaleva pedaços de corpos de trabalhadoresassassinados por seus patrões numa guerra

 

Estranha guerra em que só um lado perde soldadosmesmo tendo o maior exército

 

Eis aqui tudo que tenhomeu único bemminha única herança:meu corposobrevivente de guerrajurando vingançaA CORAGEM ESTÁ NA MESA

 

um fio escapa da bandeira vermelhatremulando no ponto mais alto da fazendacai no chãoé incorporado à terraassim como as gotas do suorde quem escalou a imponente estruturahá tanto tempo abandonadapra fincar ali o estandarte de lutafacão que extrapola o mapa

 

as lágrimas de quem chamou de suauma terra pela primeira vezpingam no chãoe são absorvidas pela terraassim como o cadeado do portãoque separava a fome da comidaestourado a marretadase pisoteado pela caravanaque traz de sobra em sua bagagemo que ali quase não há:vida

 

as gotas de saliva que voam junto da frase“essa propriedade agora é nossa”dita na assembleiae as que escapam a cada palavra de ordemgritada na cara do inimigochegam ao chãoe se somam à terraassim como os minúsculos pedaços de peleque se soltam dos dedos do violeiroquando toca canções de lutaacompanhado por um coro de bonés vermelhos

 

as cinzas da lenha queimadana cozinha erguida em poucas horase fiapos da mandioca do almoço coletivosão jogados no chãoe vão nutrir a terraassim como as lascas dos eucaliptos usadospra sustentar a lona preta dos barracosque povoam o descampado já no primeiro dia de ocupação

 

os papéis em que as crianças desenharão futurosfarpas de foices e enxadas posicionadas no portão(que agora separa o ódio da resistência)pêlos que caem de punhos cerrados alçadosmuitas gotas de suor de um trabalho sem patrõestudo tudo vai pra terravira adubo

 

se a pouca comida feita pelo agronegóciovem banhada em venenoregada com o suor da escravidãoe adubada com sanguede camponeses assassinados,os alimentos produzidos pelo MSTcarregam todos esses adubosfeitos de coragem

 

(Lucas Bronzatto) 

 

– inspirado na luta da ocupação “Marielle Vive”, de Valinhos (SP), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra 
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Lucas Bronzatto é um rapaz latinoamericano vindo do interior de São Paulo que escreve poemas e nas horas vagas trabalha na área da saúde. Encontra seus versos nas contradições do cotidiano, nas violências, resistências e impaciências diárias, nas dores e nas cores do mundo.Não anda só, e por isso faz parte de vários coletivos. Faz parte do recém-fundado grupo de teatro “Gertrudes está louca”. É membro do Coletivo Tantas Letras, de São Bernardo do Campo e organiza, com este coletivo, o Sarau Lapada Poética, desde 2013. Compõe também a equipe que organiza o Sarau/Slam do Grito, no bairro Ipiranga, em São Paulo. Junto ao poeta Jeff Vasques, fundou em 2017 o selo Edições Trunca, dedicado à tradução e divulgação de poetas latinoamerican@s de luta, quando publicaram a antologia “Cantos à nossa posição”, do poeta Roque Dalton. 
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