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Glauber Lauria

O poeta Jorge Barbosa Filho conversou com o escritor matogrossense Glauber Lauria, leitor voraz e escritor independente, que, como poeta, também já experimentou a arte de vender seus escritos nas ruas. 

Biografia às Avessas

Glauber Lauria nasceu as margens do rio Araguaia em Torixoréu, Mato Grosso, depois bandiou-se com a família para os sertões de Goiás, em Mineiros; lá, aos treze anos, leu Cem anos de solidão e o desastre começou. Aos quinze anos estava em um grupo amador de teatro, aos dezessete viu seus primeiros textos encenados, por essa época tinha o péssimo hábito de declamar Castro Alves, Augusto do Anjos, Cecília Meireles; ler Sartre, Graciliano, Neruda. Residiu em Campo Grande, MS, onde descobriu Goethe, Kafka, Górki; mudou-se para Goiânia, GO, onde encontrou-se com Sófocles, Garcia Lorca, Baudelaire; depois esteve em Cuiabá onde deparou-se com Fitzgerald, Manoel de Barros, Ricardo Guilherme Dicke. Teve várias errâncias pelo interior da região centro-oeste, as vezes assistindo aulas, as vezes dando aulas, as vezes pedindo carona, as vezes vendendo poesia, as vezes fundando jornais, as vezes inquietação mesmo. Morou cinco anos no Rio de Janeiro, onde publicou, editou, declamou, casou, descasou, ficou bêbado e quebrou a perna em três lugares. Atualmente reside em Cuiabá e cursa Dramaturgia na MT Escola de Teatro, UNEMAT. Antes desse já esteve em outros seis cursos superiores. Possui uma renca de poemas publicados por aí e não consegue parar de ler nem de escrever.

A palavra “Sertão” atravessa o caminho de sua existência, sua escrita e sua poesia. Poderia nos descrever que sentidos esta palavra deu ao seu encontro com a Literatura e sua vida? Como foi esta trajetória para firmar-se como pessoa e poeta?  

O sertão é o deserto, o sertão é o abismo, essa é sua riqueza, sua transcendência, o sertão é filosófico porque precisa inventar o mundo, criar um universo, nas cidades, tudo já está dado, é só olhar, no sertão é preciso criar tudo. Nasci às margens do rio Araguaia nos confins de Mato Grosso, os livros foram um refúgio, um encontro, um modo de estar dentro dessa vastidão. Quem vem dos ermos tem que saber cantar, preencher espaços e solidões. Talvez escrever dialogue com esse grande silêncio que é o sertão. Talvez para tentar entendermos isso teríamos que recorrer a alta sapiência de um Guimaraes Rosa: Ser-tão. 

Glauber-vendendo-poemas Entrevista com o poeta Glauber Lauria Entrevista

Considero a poesia o gênero mais difícil de toda a literatura, logo, vender poesia no Brasil é um ato heróico, revolucionário, digno dos feitos de um Heitor ou de um Aquiles na Guerra de Tróia. Você ouve desde o amo até o odeio, literalmente. É sério. É colocar-se numa situação de vulnerabilidade total. Como gosto de dizer, vendo pedaços de minha psiquê. 

Glauber Lauria

Poeta

Bem, na sua vida você atuou nas ruas vendendo poemas para a sua sobrevivência, como foi e é esta relação com o público para quem vendia teus livros em diversos Estados, cidades nas quais passou e viveu? Há alguma diferença de atenção, afinidade e exigência entres estes diversos públicos para com o gênero poema e também com relação à declamação? Qual classe social é mais empática e receptiva em relação a poesia?   

Vendo poesia nas ruas há dez anos. E isso é a coisa mais disparatada e estapafúrdia que uma pessoa possa vir a fazer na sua vida. Menos de dez por cento do mercado editorial brasileiro é dedicado à poesia. A população em geral desconhece o salutar hábito da leitura. Considero a poesia o gênero mais difícil de toda a literatura, logo, vender poesia no Brasil é um ato heróico, revolucionário, digno dos feitos de um Heitor ou de um Aquiles na Guerra de Tróia. Você ouve desde o amo até o odeio, literalmente. É sério. É colocar-se numa situação de vulnerabilidade total. Como gosto de dizer, vendo pedaços de minha psiquê. Quanto a essa coisa de declamar, acho uma masturbação sarau em que os autores só declamam a si mesmos, todos mestres da palavra, uma merda isso, nunca declamei os meus poemas. Já os vi sendo declamados. Sempre declamava Augusto Anjos, Castro Alves, Cecília Meireles, Camões. A literatura tem que sustentar-se no papel, a literatura não é uma performance. Quanto a classe social que mais contribui adquirindo os opúsculos na rua, é a galera mais simples mesmo, que nem gosta de ler, eles compram porque te veem ali sempre, compreendem que aquilo é um trabalho diário, uma luta pela sobrevivência mesmo. A classe mais abastada funciona a base do cartão, nunca ajudam os pequenos comerciantes anônimos dos centros das cidades, quem ajuda a gente é a galera pobre mesmo, é como uma rede de solidariedade.    

Partir para Lacedemônia  

  

partir para Lacedemônia  

encontrar nove Musas  

orquestrar a música das esferas  

esquecidas filhas de Mnemósine  

  

partir para Lacedemônia  

ver-me outra vez em Hélade  

invocar Hécate  

e deixar rugir a Hybris  

  

partir para Lacedemônia  

Afrodite poiésis  

Apolo hipótese  

Dionísio sacerdote  

  

partir para Lacedemônia  

ser uma filosofia aestesis  

nihil filho de Hera  

a sangrar a histeria das eras   

  

partir para Lacedemônia  

singrar d’avesso mar  

outra vez trair Laio  

quebra pedra altar  

  

partir para Lacedemônia  

conspurcar diversos deuses  

defenestram-se certas estátuas  

destruiremos todas as leis  

  

partir para Lacedemônia  

arcar crises putrefactas  

difamar Lares  

queimar carne em sacrifício ao nada  

Sei que você é um leitor voraz, nada te escapa… da Literatura (e todos os seus gêneros), Filosofia, História, Sociologia, Teatro, bula de remédio, receitas de bolo, cartazes… etc. Como você liquidifica tudo isto para compor o seu “modo operandis” de criação diante do papel, do texto? Você tem alguma preocupação com a recepção do público aos teus poemas e textos?  

No meu cadinho vai muita coisa, rs.  

Lembro que o poeta Alam Borges me dizia que eu ia acabar escrevendo algo bom porque eu tinha o mesmo encantamento pelos clássicos e pelos malditos, gostava tanto de Tolstói quanto de Bukowski. Absorver essas vozes, seja de Ovídio ou de Shakespeare, é buscar sua voz, é se armar para buscar sua voz. Não me considero um bom poeta, estudo e trabalho para que um dia possa escrever algo que possa ser chamado de poesia. Escrever não é um conforto, um luxo, uma distração, um hobby. Escrever é uma desgraça. Quem fala que gosta de escrever não conhece os alicerces de vida em que a literatura foi feita. Se essa pessoa lesse sobre a vida de um François Villon, um Verlaine, um Cruz e Souza, um Lima Barreto, duvido que ela gostaria de se dizer poeta, romancista. Sobre escrever, escrever é sempre um desafio, sempre uma provação, uma provocação, é atravessar a barreira do medo, eu escrevo porque os meus demônios não me deixam dormir. Eu não tenho pretensão alguma de que alguém goste do que eu escrevo. O Jorge Luis Borges dizia que só deveríamos ler livros com mais de cem anos.  

Dona Dione (minha progenitora) leu Cem anos de solidão aos treze anos de idade em espanhol, escondida, a edição pertencia a um tio alcóolatra e suicida. Ela fez questão de dar-me o livro e eu também o li aos treze anos. Terminei de ler na cumeeira da casa, olhando um largo pátio que havia em frente, no interior de Goiás. Sempre digo que não desci dali o mesmo. 

Glauber Lauria

Poeta

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Como foi construído o seu Universo Poético, os autores, obras, fatos e pessoas que definiram e influenciaram (ou ainda estão por definir ou influenciar) teu existir e escrever?  

Tem uma coisa que foi muito marcante. Dona Dione (minha progenitora) leu Cem anos de solidão aos treze anos de idade em espanhol, escondida, a edição pertencia a um tio alcóolatra e suicida. Ela fez questão de dar-me o livro e eu também o li aos treze anos. Terminei de ler na cumeeira da casa, olhando um largo pátio que havia em frente, no interior de Goiás. Sempre digo que não desci dali o mesmo. Depois disso, nunca mais parei. Ia pra biblioteca e ficava lendo os títulos, eles me impressionavam muito. Daí pegava “O início e o fim”, Isaac Asimov, era uma bosta, aí, “O advogado do diabo”, Morris West, outra merda, parecia haver um instinto em mim. Quando pelo mesmo método de títulos impressionantes me caiu nas mãos “Vidas secas” do mestre Graciliano, aí sim, foi a mesma coisa também com “As palavras” do Sartre, e aí você não para mais mesmo, sou um leitor ávido. Depois teve o encontro com Wanderley Wasconcelos, jornalista, poeta, contista, romancista, também de Torixoréu, também de peixes, foi “o” encontro. A biblioteca do cara tem mais de quatro mil volumes. Ele me proporcionou Maiakovski, Hemingway, Thomas Mann, Ana C., Elizabeth Bishop, Hilda Hilst, nossa, tanta coisa. Não existe escritor sem leitura. É o alimento. Alguns totens vão sendo erguidos. Existem alguns com quem você vai andar pra sempre. Um Byron, um Wilde, são fantasmas com quem convivo. E sempre existem descobertas, sejam vivos ou mortos e é tão bom quando isso acontece, como se tomássemos um novo alento, mais uma companheira ou companheiro de estrada. Escrever é uma longa estrada e esses autores todos são grandes beatiniks que vêm com a gente.    

Não é ser apocalíptico ou cristão, o fato é que a gente faz-fez tudo errado. É o Shelley ou o Keats quem disse sobre os poetas serem os verdadeiros legisladores proscritos do mundo? Não me lembro. Mas sei que se ouvíssemos os poetas viveríamos num lugar melhor. 

Como você vê a Literatura atual e o Mercado Editorial? Existe espaço para uma Literatura densa e reflexiva, hoje, para o mundo em que vivemos?  

Pra falar a verdade me falta grana para ler autores que estão sendo publicados, tem muita gente boa por aí. O mercado editorial é a mesma bosta de sempre, um canalha da pior estirpe. Há um tempo atrás alguém teve a pachorra de bater a máquina um clássico do mestre Machado e publicar depois uma reportagem anexando a carta de recusa da casa editorial, por aí você faça uma reflexão. Não que não existam boas iniciativas, uma Patuá, uma Sette Letras, uma Kotter, mas não dão nem de longe conta de mesmo saber ou dizer o que está sendo produzido de literatura no país. É um problema do qual nem gosto de falar. Se pudesse criaria uma editora para publicar grandes autores aqui do centro-oeste que escrevem no limbo. Um cara igual o Ricardo Guilherme Dicke, apreciado por Jorge Amado, Glauber Rocha, etc, merecia uma grande editora. Uma editora igual a Cosac&Naif falir te diz sobre o mercado editorial brasileiro. Dezenove anos de editora, uma fortuna investida. Para obscuros seres sertanejos, escrever no Brasil é uma quimera. Você ganha dez por cento de capa em cada livro, se a Companhia das Letras vender mil exemplares de um livro seu num mês, você não consegue pagar o aluguel de uma kitnet. É foda. Eu não escrevo série, eu faço literatura.  

Para encerrarmos: uma palavrinha de “ânimo” ou de “desânimo” para a Humanidade, leitores de poemas e seu público em geral.  

Eu acho que vai dar merda Jorge. Sempre deu. E acho que vai piorar. Em vários sentidos. A humanidade não ajuda a humanidade. Uns são nababescos, outros miseráveis, esse próprio cálculo de uma pobreza a ser explorada, as vielas e esgotos e guetos criados para a exploração, isso vai contaminar tudo, a podridão da pobreza exalada no ar, onde portas de vidros e cercas elétricas vão velar também a morte. O Achille fala sobre o devir negro no mundo, todo mundo vai padecer. Já estamos todos, privilegiados ou não, perecendo. Não é ser apocalíptico ou cristão, o fato é que a gente faz-fez tudo errado. É o Shelley ou o Keats quem disse sobre os poetas serem os verdadeiros legisladores proscritos do mundo? Não me lembro. Mas sei que se ouvíssemos os poetas viveríamos num lugar melhor. 

Abstração número 37  

  

I   

  

Insônia de sono  

Samba à dentro  

Solo de clarineta  

Oboé valsando  

Um fagote toca  

Em surdina trompete grita  

Existem melodias  

Clamando por letras  

Existem harmonias  

Querendo palavra dita  

  

II  

  

Catártica a carta canta  

São sempre palavras estanques  

Pois quando a palavra gira  

Caem paredes, tabus e costumes antigos  

Entretemos com verbos o dia  

Dado ser ele um desafio  

Mas passa o dia  

E a palavra fica  

Estanque, catártica  

Palavra e vida  

 

III  

  

Paira uma palavra que se quer livre  

Paira a ausência desta e sua agonia  

Paira algo em silêncio que desliza  

Esta mesma palavra que dista  

Palavra ainda não dita  

  

IV  

  

Nuance de esquina  

Evasiva  

Pássaros despertam  

Palavra singra  

Nau gramática  

Portuguesa língua  

Estala em letras  

Esta singeleza  

Poesia   

Sobre o entrevistador

Jorge Barbosa Filho: Escritor, Poeta, Compositor, Professor de Literatura e Língua Portuguesa formado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná). Vive hoje na Parnaíba – Piauí, colaborando com Editoras, Revistas, Sites. Agências de Marketing e Publicidade.