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ALEXANDRE GUARNIERI

Entrevista exclusiva com Alexandre Guarnieri, autor de O Sal do Leviatã e do premiado Corpo de Festim, onde falamos sobre pop art, a cena contemporânea, suas influências e projetos.

Alexandre Guarnieri é poeta e historiador da arte, arte-educador (habilitado em História da Arte) pelo Instituto de Arte da UERJ e mestre em Tecnologia da Imagem pela ECO (Escola de Comunicação da UFRJ). 
Carioca de 1974, na infância se interessou por desenho, histórias em quadrinhos e o que pudesse colecionar sobre super-heróis, robôs, samurais, filmes do Conde Drácula e naves espaciais. 
 Mergulhou na poesia em 1989, quando descobriu livros de Gullar, Drummond, Ledo Ivo e Manoel de Barros na biblioteca do colégio. Integrou, a partir de 94, o movimento carioca da poesia falada: CEP 20.000, Cambralha na PUC, Interface na UFF, Revista Urbana no Castelinho do Flamengo, Zn-Zsna UERJ.  
Foi premiado em 2015 pelo 57° Prêmio Jabuti por seu segundo livro de poemas Corpo de Festim (2014). Estreou com Casa das Máquinas (2011) e organizou a antologia inspirada no mundo dos quadrinhos Escriptonita (2016). Desde 2012 integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Fã de David Bowie, escreveu Gravidade Zero em 2017 sob influência do ídolo. Nos brinda em 2018 com O Sal do Leviatã publicado pela editora Penalux. 
Cadê a poesia? Como você enxerga a cena, com o que tem tido contato, o que acha que se pode esperar e como tem sido sua experiência com ela? 
 
A poesia deve estar misturada à vida como todas as outras artes. Arte de salão, se ainda existe, é puro anacronismo. Quando os artistas creem que a estética pode e deve estar a serviço desta ou daquela luta, aceitam abdicar da pesquisa estética em graus variados, ou o quanto julguem necessário para que a mensagem seja clara e não se perca. Toda arte engajada corre esse risco. Mas se considerarmos que poesia é risco e que toda arte é política vemos hoje uma cena multifária que exige posicionamento, lançando tentáculos para todos os lados, uns poetas mais centrados na valorização do objeto-livro, outros menos, uns poetas mais centrados na forma do poema, valorizando o papel e a tinta, solitários, outros mais nas relações do corpo com o espaço e do que se pode produzir daí, vociferando versos, performando nas praças e espaços alternativos. Todas as manifestações enriquecem o acesso à poesia. Muitas delas denunciam a falta de valorização do texto como arte na escola e acabam sendo uma demanda reprimida. Estou mais afeito ao papel ultimamente, mas já fui dos saraus e da rua. A personalidade do artista vai conduzindo a sua busca e vice-versa. Não somos pedras. Temos sangue quente e mudamos de direção constantemente. Não há certo e errado nisso. Só não pode haver silêncio fora de contexto. 

Todas as manifestações enriquecem o acesso à poesia. Muitas delas denunciam a falta de valorização do texto como arte na escola e acabam sendo uma demanda reprimida

O que pode a poesia? Como é pra você o ato de escrever, o que é para você ver o que é e foi escrito, o que a poesia inscreve e transcreve à realidade. 
Acredito que a poesia possa catalisar transformações em nossa forma de interpretar o mundo, modos de reorganizar nossos impulsos mais violentos ante os descontentamentos, os medos e o tal do “mal-estar da civilização”. A poesia pode oferecer pistas de como, ao ressignificar o mundo, podemos alargar a nossa vivência. Não consigo entender quem não precisa da arte pra viver, quem não vai a museus ou busque na vivência estética alargar a experiência de estar no mundo.
No meu caso, o ato de escrever é muito interno e solitário, mas ao mesmo tempo minha personalidade é extrovertida. Fico à mercê deste pêndulo, ora mais internalizado, ora na ânsia da sinestesia, e isso acaba movendo meu dínamo íntimo em direção à criação e servindo de combustível, das leituras tranquilas no sofá da sala aos porres na mesa do bar… se bem que ler no bar também é excelente, mas tenho praticado pouco! Aliás isso rendeu uma antologia bem bacana que me deu muito prazer participar. Chama-se PORREMAS (saiu pela Mórula), só com poemas sobre biritagem e bebedeira e dessa relação com a criação poética. Mais uma prova de que “sem fricção não há criação”!  
Como você vê a pop art? Como responde aos que a vêem como homogeneizante? O termo faz sentido pra você? Como ela participa da construção dos hiperlinks constantes na sua escrita? 
Fui bombardeado pela pop art nos anos 80 e meus interesses e temas acabaram sendo moldados também pelo pop. Gibis, cinema & literatura sci-fi, filmes B, rock & desenhos animados, tudo isso foi alimento para minha sensibilidade estética em formação quando eu era guri. Meu caminho foi tentar misturar esses elementos a alguma pretensa pesquisa de linguagem, foi mais ou menos o que fiz em GRAVIDADE ZERO, meu terceiro livro de poemas, numa tentativa de biografar poeticamente o Major Tom, um dos personagens criados por David Bowie. No SAL DO LEVIATÃ, meu livro mais recente, os atravessamentos de elementos como Moby Dick, Capitão Nemo, Godzilla, o filme Viagem fantástica, o programa do Jacques Cousteau, os filmes da franquia Alien, etc etc, também podem ajudar na construção dessa colcha de retalhos pop para ir além. São elementos usados como peças de um quebra-cabeças, para que a narrativa que atravessa o livro possa achar seu caminho e fazer sentido. No fundo, creio que a pop art, ao criar seus ícones e símbolos, mesmo com simplicidade e muita cafonice (o brega, o kitsch, etc.), também sempre foi capaz de visitar questões maiores, humanas, existenciais. 

Clique na imagem para ler o poema Gojira redivivo publicado no site da Revista Mallarmargens

2011: Casa das máquinas, Rio de Janeiro: Editora da Palavra  
2014: Corpo de festim, Rio de Janeiro: Confraria do Vento. 
2016: Corpo de festim (2a edição), Guaratinguetá: Penalux. 
2017: Gravidade zero, Guaratinguetá: Penalux  
2018: Horrorigami (coleção uma folha, um livro), Rio de Janeiro: edição artesanal. 
2018: O sal do leviatã, Guaratinguetá: Penalux.

Não podemos esquecer que o capitalismo subverte todas as lógicas centradas na valorização do humano

Ser escritor. Isso é coisa que se faça? Quem são os responsáveis por essa escolha maravilhosa? Fale de suas influências e as pessoas que o ajudaram nessa caminhada
Não é acordar num belo dia e tomar uma decisão arbitrária: “quero ser escritor”. A vida vai apresentando as encruzilhadas e as escolhas vão sendo feitas, tanto racionalmente quanto instintivamente, com mais ou menos ajuda (acesso a livros, bibliotecas, museus, professores comprometidos, casas de amigos criativos etc etc), até que a gente se descobre autor, poeta, artista, quase que por acaso. Até que não se queira fazer outra coisa e a vida prática comece a se organizar em torno da criação. Por isso decidir estudar História da Arte, por acreditar que a arte tem poder, desde que o contexto sócio-econômico permita. Não podemos esquecer que o capitalismo subverte todas as lógicas centradas na valorização do humano e eis que de repente, o mercado da arte virou o paraíso de quem lava dinheiro. Vejo Arte e Mercado como forças antagônicas, cada vez mais, mas essa é tampouco uma discussão simples.
A poesia irá derrotar o dragão da maldade? 
Se correr o bicho pega, se ficar o bico come! A arte não pode nos salvar da Morte, mas alivia a lida dos dias! A arte pode ser denúncia, escape, briga. A arte pode ser um bálsamo antes, durante e depois da batalha cotidiana pela sobrevivência. Sem arte não dá mais! Sem ela, definitivamente, a vida empobrece demais. 

Sem arte não dá mais!

SENHOR BOM POETA...
Alexandre Guarnieri
às vezes escrevo religioso como um monge zen 
professando no formato dos sermões 
os mais absurdos sutras e koans (nonsense) 
às intermináveis guerras no intervalo entre 
sons e letras… quisera explodir tudo… 
às vezes como um louco num discurso vão, 
reverberando aos mais ébrios berros 
“acaso é um sacerdócio inglório 
esse hábito de tantos poemas bestas?” 
o que significa a exigência retilínea 
desse moto-contínuo gráfico e fonético? 
o que encerra o mistério dessa tão 
superestimada corrente sanguínea da língua? 
quisera criar uma palavra linda límpida 
um singelo neologismo único e rebelde 
ao invés grafo rabiscos críveis 
mas absolutamente descartáveis 
as rimas sempre rentes ao chão 
e às paredes desses bélicos cadernos… 
quisera ensaiar a escrita mais clara 
e apta e cristalina mas o que sobra 
quase sempre é esse labirinto caótico 
de verborragias cansativas um limbo 
infinitamente exaustivo de milhares 
de cilindros linguísticos 
de caleidoscópicos trópicos  
de relógios assíncronos, ilógicos,  
em cada qual um horário próprio… 
quisera ligar o “foda-se” não dar 
a menor bola cagar e andar pra todo 
e qualquer juízo de valor estético encontrar 
no remanso de uma frase feita, de efeito, 
a destreza de um poeta revolucionário! 
é por isso que eu quero 
que você vá pro caralho, senhor bom poeta! 
(é você mesmo aí!) 
vá pro caralho, senhor bom poeta! 
você que se engasga na tristeza 
e finge-se um palhaço alegre e leve 
e cantarola piadinhas insidiosas 
pra regatear migalhas de aprovação 
nos bons e velhos salões de sempre 
você que quase se afoga no próprio orgulho 
mas certamente afunda no lago de fogo e enxofre 
da auto-piedade até quase o último segundo 
quando se agarra à corda trançada 
lançada pela equipe de salvamento 
ou se insurge no momento final 
e sabota o resgate, e se afoga 
enquanto finge ainda saber nadar 
mas morre aos poucos, 
atirando pérolas aos porcos, 
mas sufoca aos poucos (seu louco!), 
engasgado na própria angústia, 
como um peixe lento e cansado de si mesmo 
cansado da água como habitat já inadaptado ao sal 
de sua própria lágrima envenenando rápido o aquário 
de sua própria casa, dessa sua casca frágil, 
sob o brilho vítreo dessa máscara… 
vá pro caralho você, senhor bom poeta, 
alice ou alex, que habita por trás do espelho, 
que se esconde no país das maravilhas, 
ou num inferno de pílulas coloridas, 
e me imita sempre o bom mímico de si mesmo 
ou de mim mesmo quando estou em mim, 
irritado, rindo ou irado, nesse eterno jogo da imitação… 
por isso que eu quero é que você 
vá pro caralho, senhor bom poeta! 
é você aí mesmo! não se faça de rogado, seu folgado! 
arruma tuas malas e vaza! já anunciaram nas rádios: 
seu voo (sua viagem sem volta) o aguarda… 
e leva de uma vez, quem sabe pra algum planeta novo, 
essa porra de “eu lírico” (seu fingido!), 
agora parta, astronauta tupy… 
pra bem longe daqui!