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Entrevista exclusiva com William Teca

O poeta curitibano William Teca concedeu uma entrevista especial a Jorge Barbosa Filho. Leitor e acadêmico, Teca não deixa a erudição soterrar o humor fino da ironia e nos conta um pouco sobre sua obra. Confira conosco este ótimo encontro. 

William Teca nasceu em Curitiba, em 1975. Passou pelas áreas de Letras e Filosofia da UFPR. Trabalhou como professor, mediador de leitura, redator e editor; também executa trabalhos de tradução e é músico bissexto (cursou harmonia no Conservatório de MPB de Curitiba). Autor de três livros: “sinistros insones” (Catalina edições, 2017), “dois contos” (Bururu edições, 2019) e “meia com amargo” (Kotter Editorial, 2020). Conhecido frequentador das reais claridades do bas-fond curitibano e das obscuras trevas das Academias Universitárias, tem em seus poemas e textos a fina dialogia entre a superfície dos fatos cotidianos e a arquitetônica complexa de histórica erudição literária. Partindo destas vivências, seu lirismo torna-se ácido, desconcertante, sarcástico, sempre reflexivo provocando insônia no establishment e no sossego hipócrita da classe média. O elegante poeta vive no subúrbio de Curitiba e com seu humor corrosivo, provoca poesia e fascínio por onde passa e escreve.

1) William: Como você encontrou (ou percebeu) a poesia, ou então, como a poesia te encontrou? Você poderia relatar esta trajetória, este encontro?  Este confronto e talvez, desconforto?  

Como boa parte das pessoas, comecei a escrever na adolescência, eu tinha uns 15, 16 anos, quando mais ou menos começa o processo de efervescência hormonal, nessa mesma época comecei a tocar violão e a me interessar (como é de praxe) mais por música, então as duas coisas foram concomitantes. Claro que o ambiente na minha casa favoreceu, meu pai era músico e ator (ganhou até um troféu Gralha Azul – importante cá na terrinha) e lia muito e recitava muito, minha mãe foi atriz, então eu cresci cercado por arte e convivendo com pessoas do meio. Fui encontrar a minha turma de verdade quando entrei na faculdade, mas até conseguir me firmar e encontrar minha voz foi um árduo caminho, porque, por temperamento, nunca fui muito de me aliar às panelinhas do bom mocismo conveniente aqui da cidade, creio que por isso levei tanto tempo pra publicar, o que no fim das contas foi bom porque atingi um certo amadurecimento e aprendi a ser um pouco mais contundente com as coisas que eu queria dizer e, principalmente, honesto com a minha poesia – aquilo de as palavras caberem na minha boca, fortalecendo a transitividade que eu tanto prezo entre o conhecimento da alta cultura e a convivência com o mais originário da vida, o mundo mais rasteiro e humano do botequim; hoje em dia, contudo, me sinto mais à vontade no bar do baiano aqui perto de casa, no bairro que tanto gosto e onde as pessoas tem muito a dizer, do que nos nichos culturais dos gourmets.  

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William teca

(…)pra mim a arte, e a poesia é arte, não serve como utensílio e sua validade precisa ser procurada e definida por outras categorias que não a da racionalidade, e sim o sentir real (na acepção mais dura do termo estética). Enfim, se as pessoas procuram na poesia algum valor que não ela em si mesma, definitivamente não entenderam nada. 

2) Afinal o que é poesia/ De onde ela vem, onde ela está? Pra que serve neste mundo de pandemias, “pandemências” e pandemônios?  

Tenho duas respostas a essa pergunta, a primeira como pesquisador do assunto se resume àquilo que o Aristóteles já disse: “Poesia é a feitura da mimese”, o xis do problema é entender o que é essa tal de mimese, coisa que exploro nos meus cursos de Filosofia da Arte, apoiado em alguns autores que têm muito a dizer sobre o assunto, como o Octávio Paz, o Luís Costa Lima, os grandes fricativos alemães como os irmãos Schlegel, o Schiller e o Schelling – sem esquecer de Herder e, claro, o Heidegger (lido pelo essencial Benedito Nunes) e com uma nuance fundamental de caras como o Mircea Eliade e o Benedetto Croce. Daí já dá pra ver que o terreno é espinhoso e por vezes enfadonho, e poderíamos tergiversar pacas a respeito sem chegar, necessariamente, a algum conceito preciso, mas, nesse caso, a elucubração é mais satisfatória e interessante do que o ponto de chegada da viagem. Por outro lado, como poeta, faço minhas as suas palavras que definem bem: “poesia é sentir e dar sentido”. À parte isso, creio que em termos pragmáticos a poesia acaba sendo instrumentalizada, porém nesse caso já deixa de ser arte e vira outra coisa, a poesia possui essa dimensão obvia da propedêutica, mas esse é seu aspecto mais primário, pra mim a arte, e a poesia é arte, não serve como utensílio e sua validade precisa ser procurada e definida por outras categorias que não a da racionalidade, e sim o sentir real (na acepção mais dura do termo estética). Enfim, se as pessoas procuram na poesia algum valor que não ela em si mesma, definitivamente não entenderam nada.  

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3) Você poderia fazer um breve resumo dos seus livros até então publicados? Quais as procuras originais de linguagem para se expressar estética e poeticamente em cada um deles? Onde poderemos adquiri-los?  Em que sites, lojas, livrarias?  

O primeiro livro que publiquei foi o sinistros insones, eu costumo dizer que é um “livro ao vivo” porque reúne poemas que eu costumava recitar pela cidade – aliás, creio que isso foi fundamental pra mim como poeta, a palavra viva e evocada mostra claramente o que funciona e não funciona em termos poéticos, nesse livro está configurada a síntese da minha voz e de boa parte do terreno que ainda pretendo explorar na minha linguagem.  

Meu segundo livro de poemas é o meia com amargo, já é um livro com uma pegada mais madura, tanto tecnicamente quanto no tipo de sensibilidade, de certa maneira meus dois livros conversam, mas já é um tipo diferente de linguagem, bem mais íntima e menos agressiva, ainda que expressiva nas suas sutilezas (que pode passar batida pra um leitor de primeira viagem, porque pra perceber o que eu digo ali é preciso convivência, cumplicidade e intuição um pouco mais apuradas).  

Recentemente publiquei também um pequeno livro de contos, o dois contos, fruto de meus exercícios com o uso da linguagem, foi uma tiragem pequena e para poucos, mas é um livrinho que gosto pacas, justamente por conseguir conjugar simplicidade e requinte.  

4) A Filosofia, a Filosofia da Linguagem, a Filosofia de Boteco, de Rua… como estas se entrelaçam nos seus interesses poéticos e existenciais?  

Gosto bastante da transitividade, como disse certa vez um conhecido: “intelectual tem que jogar bola”, então, pra mim, estar em contato com gente de verdade é algumas vezes mais importante e formador do que frequentar os meios intelectuais e acadêmicos, a universidade é, obviamente, importante, mas, pra citar o Oswald: ”Universidade é vitamina”, o alimento nutritivo está na vida, no cotiando, ou como eu digo num poema: “bebuns de esquina que calam/ e observam/ até que numa cusparada/ viva/ honesta/ sincera/ lançam fora o último palito do rollmops”.  

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William teca

(…)há muita gente que despreza solenemente o que escrevo porque tem na cabeça a ideia de que a poesia é aquilo que se fazia no século XIX e não entenderam o Drummond ao dizer “jamais serei o poeta de um mundo caduco”.

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5) O que é ser um “escritor e poeta suburbano” no Mundo, numa cidade como Curitiba, onde geralmente as pessoas “não falam com estranhos” (sic) rsrsrs… e os poetas são dados como estranhos em qualquer parte do Planeta?  

Eu costumava ter um certo pejo de me intitular poeta, porque quando você diz isso acaba vindo à mente das pessoas aquele cara chato que faz decassílabos à lá Bilac ou Casimiro de Abreu, agora estou mais tranquilo quanto a isso, mas, o difícil da coisa é que a poesia da conveniência, as flexões de braço da técnica acabam sendo mais relevantes para a maioria do que buscar uma linguagem própria, o que é o meu caso, há muita gente que despreza solenemente o que escrevo porque tem na cabeça a ideia de que a poesia é aquilo que se fazia no século XIX e não entenderam o Drummond ao dizer “jamais serei o poeta de um mundo caduco”. Então, nesse sentido é matar um leão por dia pra tentar ser ouvido (e não olvido) nessa massa discursiva dos poetas com sobrenome e firma reconhecida, mas um dia quem sabe “o mundo comerá do meu biscoito fino”. Quanto ao fato de os poetas serem estranhos a parte mais importante é as pessoas e o público entenderem que o poeta também come e tem boletos pra pagar, as pessoas adoram arrotar que incentivam a cultura, mas na hora do pega pra capar tiram o corpo fora porque são incapazes de capitalizar o que o poeta faz.

(sem título)  

pegue pesado meu velho  

porque quem ama a solidão  

não compartilha o sim e sim  

o não no pão de cada dia  

  

o amor é uma ilha  

cercada por tragos largos  

o djavan rima com matilha  

e eu com meu olhar desesperado  

  

não confie em qualquer trilha  

seguindo aquilo que nos cita  

o velho careca do alto do penhasco  

  

aquilo que me brilha é um  

pior momento  

porque é sentimento  

mas já foi passado  

6) Como você vê a produção literária e poética atual em Curitiba, brasil e no Mundo em meio ao massacre de superficialidades da Indústria Cultura. Que perspectivas você ousaria traçar para a sobrevivência da Arte.  

A minha geração amadureceu pacas e está produzindo seus melhores frutos, caras como o Pozzo, o Ozieck, pra citar dois de quem gosto muito, estão, enfim, tendo alguma visibilidade, depois de desbravar o caminho no peito e na raça, o que permite às novas gerações pegarem a estrada um pouco mais pavimentada. Há muita gente boa escrevendo fora desse eixo de Curitiba, o que é extremamente relevante e demonstra que as famigeradas panelinhas do drops de cereja já não são tão monopolizadoras do capital cultural. Creio que pouco a pouco esse cenário tende a se fortalecer, ainda que a indústria cultural tenha mais poder de fogo, creio que o que falta para nós todos é uma crítica literária local, com espaço pra explorar e conduzir as pessoas ao consumo de nossos autores, sem precisar ficar pedindo penico pra gente dos outros eixos, em suma, falta a gente reconhecer que há vida inteligente por aqui e que tem propriedade pra falar.  

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William teca

Creio que somos criaturas tortas e loucas por insistir em fazer poesia, literatura, música e arte neste mundo e neste país que é incapaz de nos valorizar (…)

7) Você poderia falar um pouco sobre sua dissertação de Mestrado “A Carnavalização de descartes no ‘Catatau” de Paulo Leminski”? Virará livro? E sobre o seu novo livro de poemas, “Caderno Felino de Um Suicida”, que logo virá à tona.  

Minha dissertação já está em livro, com o pitoresco nome de (des)car(tatau), só estou esperando capitalizar os recursos necessários pra impressão, como sei que dificilmente alguma editora se interessaria, porque me falta o sobrenome e o apadrinhamento, será mais um projeto autoral por uma editora pequena, mas vai sair.  

O caderno felino do suicida é um projeto em parceria com o Bruno Sanromann, um guri genial que além de escrever caralhisticamente bem, possui uma percepção plástica singular e vai ilustrar o livro.  

Além desses dois projetos prontos, estou finalizando uma novela nos mesmos moldes pulp fiction de dois contos, creio que até agosto também deve estar pronto pra imprimir.  

p – 47 d thunderbolt  

  

missão secreta  

sento a pua  

pra ver se a cobra fuma  

voando baixo evitando radares  

maridos violentos  

e a patroa  

visibilidade boa  

alcinhas  

marquinhas  

pernas  

e dedinhos em sandálias havaianas  

tenho a manha de abater aeronaves  

sob qualquer clima  

ironia  

sarcasmo  

ou álibi  

no mau tempo  

navego por instrumentos  

adivinho signos  

leio mentes  

ofereço cigarros e isqueiro  

sinais de fumaça são ótimo alvo  

para bombardeios  

em caso de emergência  

ejeto  

e torço para não ser feito prisioneiro  

casa  

comida  

roupa lavada  

e aliança no dedo  

8) Para terminar: Uma palavrinha de “ânimo” ou “desânimo” para a Humanidade, leitores de poemas e seu público no geral?    

Creio que somos criaturas tortas e loucas por insistir em fazer poesia, literatura, música e arte neste mundo e neste país que é incapaz de nos valorizar. Ser artista, aqui e agora, é uma profissão de fé, porque fazemos as coisas por teimosia e birra e, chega um momento, sem esperar absolutamente nada em troca. E vale a pena? Bem, vale, porque é a nossa única maneira de resistência e tenho fé que os poetas, além de antenas da raça ou centrais elétricas, podem, no mínimo incomodar, o que já é uma grande coisa. Segue o baile.  

noite  

por que me vem se morro um pouco  

toda vez  

noite porque me vem  

  

se estou aqui e parte  

de mim algo que me esqueci  

  

noite  

mote a insônia o trote  

o papo dos vizinhos  

a sorte de heloísa que não conheço  

é tão importante ou somenos  

noite me dá o poema de oswald  

  

porque é melhor a insônia  

a parede  

o murro  

há que se ouvir melhor  

do que ser muda a noite  

  

e a caixa de descarga  

pinga  

noite fugidia  

que culpa tenho se não me vejo  

e ninguém lê  

o que me escrevo  

noite  

  

pontuada e afoita  

como as redações da quinta série  

ai  

a intempérie  

noite cheia de vírgulas  

  

outrora foi boite  

agora é o boi mal digerido  

cores  

fábulas  

nadas  

incisos  

e mais um dia  

  

noite  

foi-se  

embora de veria ter sido  

se foi foi devaneio lírico  

e aqui de dia  

oi  

nada duvida  

  

noite  

não espero mais  

nunca lerei os textos de Kierkegaard  

  

noite  

minha juventude  

minha amplitude  

minha cirrose  

meu câncer de pulmão  

  

ó minha noite bilaquiana  

que heloísa guarde os badulaques  

e durma  

  

porque morreremos  

serenos  

sem culpa  

apenas a lágrima 

 

 

 

noite a rima cobiçada e absoluta  

Sobre o entrevistador

Jorge Barbosa Filho: Escritor, Poeta, Compositor, Professor de Literatura e Língua Portuguesa formado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná). Vive hoje na Parnaíba – Piauí, colaborando com Editoras, Revistas, Sites. Agências de Marketing e Publicidade.