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Ricardo Chacal

Ricardo de Carvalho Duarte, o poeta Chacal, é carioca e um dos primeiros a se utilizar do mimeógrafo para divulgar poesia durante os anos 70, onde se viviam os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil.,
 
A geração destes poetas, prontos para expressar seu descontentamento e vontade de amar livremente, driblava as convenções e as editoras, pautadas ideologicamente e sob o olhar da censura que se instaurou no país.
 
Rapidamente ganharam a alcunha de “marginais”, que os acompanharia até a atualidade, revelando que as convenções e a caretice permaneceriam no centro, desatentas ao que a juventude quer para o presente. Como uma herdeira direta do Tropicalismo, a Poesia Marginal juntou conceitos do modernismo à Música Popular Brasileira, conquistando o público e revelando novos autores, dispostos a experimentar, performar, canibalizar e desbananalizar a cena artística.

O que pode a poesia? Como enxerga a cena contemporânea e suas potencialidades?  

a poesia pode muito. diante de um poema que te afeta, sua potência sobe um Everest num piscar.
a cena é forte. embora difícil de definir. os estudos culturais ajudaram a embaralhar o que já era confuso.
os critérios nunca foram tão subjetivos. vejo muita denúncia, discurso, manifesto. a maioria não me afeta muito. enfim, rola um arrepio. de onde vem, não sei exatamente. mas acho que a poesia, como o velho guerreiro, não veio para explicar. 

​O grande mérito dos anos 70 foi tirar o véu do solene, do sublime, trazendo o poema para o corpo e a fala, coisa que o hip hop levou ao extremo, fazendo um poema tribal, a muitas vozes.

Poeta do Silêncio, Marginal, Mimeógrafo, Rock’n’roll, Cigano, Mutante, Ricardo Chacal é um promotor de bons encontros. Sua trajetória como poeta e agitador cultural alterou as bússolas dos que insistiam em mapear a poesia numa navegação de cabotagem que não se lançava em direção ao novo ou ao povo. Mais do que páginas, a poesia de Chacal produz vida e performance. Através da oralidade e dos corpos, a poesia passa a ser o happening e o encontro o centro em torno do qual orbitam e atravessam poetas cometas, astros e satélites.

Em 1975 você escreveu América. Nesse período conheceu Cacaso. Geração Mimeógrafo, Zine e Livreto. Hoje a poesia periférica surgiu nas capitais, influenciada por outra pegada, ainda marginalizada pelos oligopólios de comunicação. A poesia nasceu pra ser marginal em qualquer década deste século?
 
desse e de todos os séculos. quando você sai da linguagem referencial, tudo depende da sua forma de ser impressionado. isso vai de cada um. hoje a periferia, o centro da borda, representa melhor a fala engajada do que a poesia marginal ou a poesia engajada do CPC (Centro Popular de Cultura) dos anos 60. o grande mérito dos anos 70 foi tirar o véu do solene, do sublime, trazendo o poema para o corpo e a fala, coisa que o hip hop levou ao extremo, fazendo um poema tribal, a muitas vozes.
O CEP 20.000 é um dos eventos mais longevos de poesia, música e performance do Rio de Janeiro. Como você descreve esta trajetória de 29 anos de encontros?
  
foi o melhor que fizemos para ganhar a vida. a poesia enquanto força, contato, a potência do outro. o cep é uma imensa poesia de 29 anos, feito por poemas, músicas, sem fim. 
esse o melhor combustível para se deslocar por aí. 
o cep, como a vida, é feito de altos e baixos, uma mistura única de arte interagindo com pessoas. as vezes a galera vai e o cep rende muito. vibra. quando não, o êxtase reflui. é bom ver 4 ou 5 gerações se sucedendo, sempre com a manha de transformar e se transformar.

A poesia comparece quando a bronca é muita e as opções poucas

Mais uma vez, a censura e um discurso refratário à arte em geral apareceram no país. É um bom momento pra se fazer poesia? A poesia irá derrotar o Dragão da Maldade?

um ótimo e sofrido momento para a poesia. o discurso político paleolítico tradicional se desgastou em meio a multiplicidade, a instantaneidade das plataformas digitais.
a poesia pode causar com seus sintagmas polivalentes, com a língua do desejo e a magia dos encontros. isso acontece: slam das minas, cep, subcena, as dezenas de saraus poraí. no cep, percebo que cada vez maior número de pessoas, de várias idades, gênero, cor, classes, escolhas sexuais, querem fazer. A poesia comparece quando a bronca é muita e as opções poucas. Assim foi nos anos 70 em plena ditadura militar que hoje se reproduz de outra forma.

Delírio puro

quanto mais louco
lúcido estou.

no fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo

me confundo quando boio
me conformo quando nado
me convenço quando afundo.

no fim do fundo
eu te amo.

O que era Marginal tornou-se Magistral

Em 1975 participou do grupo Vida de Artista, que contava com poetas como Francisco Alvim e Cacaso. Nesse ano lançou seu terceiro livro, América. Em 1976 teve poemas incluídos na antologia 26 poetas hoje, de Heloísa Buarque de Hollanda. Lançou Quampérius e teve um poema incluído na Revista Navilouca, editada por Wally Salomão e Torquato Neto.
 
No final dos 70, com Charles Peixoto, Bernardo Vilhena e Ronaldo Bastos, fundou o Nuvem Cigana, onde as performances atraíram um grande número de pessoas e deixaram um outro sem número de histórias e encontros.
 
Juntamente com Guilherme Zarvos, na transmutação das Terças Poéticas, Chacal vem tocando desde 1990 o Centro de Experimentação Poética, o CEP 20.000, que acontece atualmente no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, Rio de Janeiro.
 
Michel Melamed, Pedro Rocha, Carlito Azevedo, Gregório Duvivier, o grupo musical de pop-rock Boato, Viviane Mosé, Rod Britto, Tereza Seiblitz, Fausto Fawcett e muitos mais frequentaram e frequentam esse lugar de encontro onde a poesia e a liberdade dão o tom a festa.

CEP 20.000

 CEP 20.000 – documentário de Daniel Zarvos sobre o projeto CEP 20.000 (Centro de Experimentação Poética do Rio de Janeiro). Com Chacal, Guilherme Zarvos, Michel Melamed, Pedro Luís, Dado, Ericson Pires, Maurição, Cazé Peçanha, Viviane Mosé, Pedro Rocha, Maurição, Tavinho Paes, Rubinho Jacobina, Alexandre Vogler, Aimbere César, Botika, Vitor Paiva, Domenico Lancellotti, Boato, Carlos Emilio Correa Lima, entre diversos outros artistas. 

Fonte: www.michelmelamed.com

CHACAL: PROIBIDO FAZER POESIA/TRILHA SONORA
Em abril de 2014, Chacal apresentou sua arte de poeta e performer na Harvard University, nos EUA. O filme de Guilherme Trielli Ribeiro, produtor e roteirista, oferece uma visão de sua passagem pela mais tradicional instituição de ensino norte-americana, contaminando-a com sua poética pós-hippie e proto-punk.
Ouça a trilha sonora da produção.
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