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Décio Pignatari, visionário, precursor e revolucionário

Poucos encarnam tão bem o conceito de multiartista como Décio Pignatari, fundador do Grupo Noigrandes com os irmãos Augusto e Haroldo Campos. Poeta, crítico literário, tradutor, publicitário, cronista de futebol e até mesmo ator, ficou conhecido do grande público por sua poesia visual/concreta, crítica e atual. Um homem bem à frente de seu tempo, no sentido preciso do termo

EVOCAÇÃO PASTORAL DO MENESTREL

Surges nu, de arrabil, no tempo azul e alto,

quando as grandes palavras parecem coroar-se

de beleza alcançada: vai em meio a caçada:

soltaram-se os falcões e gerifaltos,

que enfiam através sonoras torres

levantadas no ar a sopro de bucinas!

Glorioso no ademã dos teus cantares,

teu corpo evolve

         róseos meandros

em volumes brandos, arredondando

as juntas, à sombra

das romãs – e exorta a claridade

dos cimos: ei-lo subindo

               além dos gerifaltos!

Por um momento, aborrecendo olhares doces

as peripécias gárrulas da faina, as bem-talhadas

ondulam por teu corpo, e aos tornozelos teus

colando os lábios de amaranto,

                       suspiram bálbuces.

Logo, porém, sentido em meio às coxas

um úmido pulsar de línguas tesas

precipitam-se quentes, intumescendo

                           enquanto correm,

à Marcha Triunfal dos Cem Faisões!

Eis que te abates sobre os seios do instrumento,

chorando por extenso a luz que foge ao corpo

e galga, heróica, junto aos clangores da vitória,

as grandes nuvens suseranas e estivais,

as Nuvens – mirante de fanfarras sobre um corpo gaio!

– Décio Pignatari (Rumo a nausicaa/Noigandres 1 – 1952), em “Poesia Pois É Poesia – 1950|2000”. Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 67.

EPITÁFIO

 

Décio Pignatari menino imenso e castanho com tremores

nascido sob o signo mais sincero e para e per e por e sem ternura

quem te dirá do mando que exerceram sobre os teus cabelos

os amigos rápidos as mulheres velozes e os que comem dentro do prato

Estás cansado Pignatari e teu desprezo entumesceu como uma árvore tamanha Estás cansado como uma avassalada aberta enorme porta enorme

e quando abres os braços repousas os ombros em amplos arcos de pássaros vagarosos Lento e fundo é o ar de tuas tardes nos teus poros

e dentro dele se desenredam fundos e atentos mesmo os esforços mais assíduos

e se mergulhares tua mão na água que repousa à água acrescentarás a mão e a água

Décio Pignatari menino castanho e meu como um cachorro grande

que atravessa o portão sereno inflorescendo aos poucos no jardim seu garbo

com a calma grandiosa das nuvens que se abrem lentas na tarde para envolver o ar devagar tua cabeça almeja devagar a superfície sem temores

e tuas pálpebras se inclinam aos eflúvios da sesta mundial de imensos paquidermes

que avolumam na sombra como grandes bulbos insonoros em cavernas dormidas Mansa dinastia de gestos nas ruínas dulcificando as intempéries da memória

descansa como um cortejo de crepúsculos antigos na cordilheira turva da semana

Crescente como o céu de março nas ameias das torres elevadas e redondas

e à tua própria sombra no mundo que perdeste 

descansa Pignatari. 



– Décio Pignatari, em “Poesia Pois É Poesia – 1950|2000”. Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2004, p. 60.

Biografia

Poeta, ensaísta, ficcionista, tradutor e publicitário, nasceu na cidade paulista de Jundiaí, em 1927 e formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Estréia como poeta em fevereiro de 1949 nas páginas da Revista de Novíssimos, juntamente com os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, com os quais também colaborou na Revista Brasileira de Poesia, porta-voz da geração de 45.

Em 1950 publicou seu primeiro livro, O carrossel. Em 1952, ainda com os irmãos Haroldo Campos, fundou o Grupo Noigandres, entrando em contato com os músicos e pintores do grupo Ruptura, ligado ao concretismo. Em janeiro de 1954 leciona em Teresópolis o curso “Raízes da Poesia Moderna”, enfatizando as contribuições da literatura européia e americana (Rimbaud, Laforgue, Corbière, Mallarmé, Joyce, entre outros) e colocando criticamente a situação da poesia brasileira.

Entra em contato com músico francês Pierre Boulez e parte para Europa, onde vive até 1956, tendo conhecido vários músicos e intelectuais de vanguarda, dentre eles, Tomás Maldonado e o poeta suiço-boliviano Eugen Gombringer. Quando retorna ao Brasil, propõe a Gombringer adotar o nome “poesia concreta” para a designação dos novos trabalhos que estavam sendo feitos no país pelos poetas concretos como Ferreira Gullar e os participantes do Grupo Noigandres, proposta que foi aceita pôr Gombringaer.

 

Com o Grupo Noigandres, participa da Exposição Nacional de Poesia Concreta nos museus de Arte Moderna (Mam-SP) e de Arte Contemporânea de São Paulo (Mac-Usp). Faz conferência, juntamente com Oliveira Bastos, no Mam-SP, sobre a nova poesia, e, em fevereiro de 1957, a propósito da edição carioca da exposição, fala na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), em palestra que acirra o debate sobre a arte concreta. Ainda neste mesmo ano publica artigos teóricos no “Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil, trabalha como redator publicitário e planejador de lay-outs.

Capa-da-1ª-edição-da-revista-Noigandres-Copia-206x300 Décio Pignatari, visionário, precursor e revolucionário Marginal Poesia Visual

Em 1958 assina o Plano-Piloto para poesia concreta. Em 1960 publica Organismo e colabora com a composição da página “Invenção”, do Correio Paulistano. Em 1961, apresenta a tese “Situação Atual da Poesia no Brasil” no II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária de Assis, em São Paulo, na qual anunciou o “salto participante” da poesia Noigandres. Torna-se professor da Escola Superior de Desenho Industrial Esdi) no Rio, e posteriormente da Universidade de Brasília (UnB), que deixou em 1964. Em Brasília organiza a Escola de Publicidade da Faculdade de Comunicação da Unb.

Na década de 1960 exerce várias atividades de comunicação: foi cronista de futebol da Folha de S. Paulo; fez crítica política e de costumes num happening no João Sebastião Bar; e fundou o Marda (Movimento de Arregimentação Radical em Defesa da Arte). Em 1967, escreve “Teoria da Guerrilha Artística”. Torna-se professor de Teoria Literária no curso de pós-graduação da PUC-SP; doutora-se, em 1973, sob orientação de Antonio Candido.

 

Escreveu obras teóricas como Semiótica e literatura e reuniu seus poemas em Poesia, pois é, poesia. Publicou ainda o romance Panteros. Sua biografia foi publicada em O Rosto da Memória, de 1986.



Fonte: CPDOC/ FGV

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Pioneiro do pensamento comunicacional

Quase vinte anos depois de concluído seu curso de Direito, Pignatari alcançou, em 1973, o título de doutor pela Universidade de São Paulo, no Departamento de Línguas Orientais, defendendo a tese Semiótica e Literatura: O Signo verbal Sob a Influência do Signo Não-Verbal. Em 1979 tornou-se pós-doutor pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da USP, instituição na qual atuou entre 1974 e 1994, sempre no curso de Arquitetura. Na PUC de São Paulo, entre 1972 e 97, lecionou no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica.  Entre 1999 e 2010 foi professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná.

 

Na área da comunicação, seu livro mais citado, e muitas vezes reeditado, é Informação, Linguagem, Comunicação, de 1967, dedicado aos alunos da Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro. A contracapa da edição mais recente afirma: “Este livro introduziu os estudos de comunicação no Brasil em registro semiótico, informacional e cultural – e não simplesmente em nível de discursividade psicossocial, ressalvando-se que as abordagens desta natureza são sempre requeridas, desde que não descartem do horizonte analítico o estudo dos paradigmas estruturantes do meio e da mensagem”.O pioneirismo da obra é reconhecido pelo pesquisador Luiz Mauro de Sá Martino no artigo O que foi teoria da comunicação? Um estudo da bibliografia entre 1967-1986, ao mapear as primeiras publicações de brasileiros na área.

O livro de Pignatari é dividido em duas partes: a primeira constitui um corpo expositivo, teórico-prático, de questões importantes do processo comunicacional. Na segunda parte estão seis ensaios que abordam temáticas tão variadas quanto o processo de transferência de favelados para um conjunto habitacional, passando pela noção de kitsch, pelas artes gráficas, pela música de vanguarda, até encerrar com a proposta de um modelo de organização para os cursos de desenho industrial no País.

 

O primeiro parágrafo do livro estabelece um entendimento que seu autor parece não ter alterado de forma significativa ao longo das décadas seguintes:

A Teoria da Informação é também conhecida por Teoria da Comunicação e Teoria da Informação e da Comunicação. Alguns teóricos e estudiosos chegam mesmo a distinguir entre informação e comunicação, o que nos parece um eco de uma outra distinção bastante arraigada e corrente, mas dificilmente sustentável, qual seja, a distinção entre forma e fundo, entre forma e conteúdo. De outra parte, o termo “comunicação” vem tendo aceitação mais rápida pela massa média do público letrado, não fosse o tema da “incomunicabilidade”entre os homens um dos tópicos clássicos  dos filosofismos do segundo pós-guerra…                            

 

De acordo com Pignatari, comunicação é um fenômeno e uma função social, “significa partilha de elementos ou modo de vida e comportamento, por virtude da existência de um conjunto de normas”. Do ponto de vista psicológico, comunicação é uma resposta a um estímulo: “Claro é, no entanto, que comunicação não é apenas a resposta, mas a relação estabelecida pela transmissão de estímulos e pela provocação de respostas. O estudo dos signos, das regras que regem as suas relações com os usuários e intérpretes, forma o cerne do problema da comunicação”.

Com isso, fica claro o outro pilar da obra: a semiótica de Charles Pierce, que ele detalha recorrendo a variados autores e estabelecendo conexões a partir de materiais publicitários e de poemas. Os usos da Teoria Matemática da Informação e da estatística são igualmente abordados com exemplos práticos. Possivelmente pensado como um livro didático, Informação, Linguagem, Comunicação traz relatos de experiências e exercícios desenvolvidos em sala de aula, histórias pessoais do autor e uma clara preocupação em esclarecer termos e conceitos, sempre utilizando extensas referências – no índice onomástico estão mais de 170 nomes.  

 

Ele critica a multiplicação de cursos de comunicação que ocorria no Brasil naquela época, dizendo trata-se, “em sua maioria, de uma mistura degradante e degradada de psicologismos, métodos audiovisuais e relações públicas”. Em Contracomunicação Pignatari recupera o debate ocorrido na década anterior na Universidade de Brasília em torno da criação de uma Faculdade de Comunicação de Massa – que acabou não sendo aceita pela instituição –e propõe um modelo inovador de curso:

Dois princípios elementares e básicos devem reger a estruturação de uma nova escola de comunicação, um referindo-se a funções e finalidades, outro norteando a operacionalidade – e ambos intimamente interligados. Princípio I (escopo) Integração dos ‘Media’ (integração dos meios e veículos de comunicação, dos códigos e das linguagens). Princípio II (operacionalidade) o aluno também faz parte do corpo docente (o professor também faz parte do corpo discente).

 

O profissional formado em um curso como o proposto seria “o novo profissional da cultura: o especialista geral das linguagens e dos meios de comunicação, vale dizer não apenas o profissional especializado do velho estilo, mas um especialista crítico (…). Foi-se o tempo da divisão, da fragmentação (…). Quem compreender apenas um médium torna-se burocrata servil deste médium. Grandes criadores modernos sempre chegaram com interesse a outros media”. Depois de mais de 40 anos, e em tempos de convergência midiática generalizada, estas palavras soam como proféticas.

Em 1998, entrevistado pelo professor Helton de Souza, Pignatari reafirma que a Semiótica é elemento central para os estudos de comunicação: “Eu trabalhei exatamente para impedir as abordagens meramente psicologizantes e sociologizantes – é um blá-blá-blá enorme. Procurei ir por um caminho mais científico, o que implica em ter noções da Teoria da Informação, noções de Semiótica e certas noções técnicas sobre a mídia. Conhecer os sistemas de signo que está usando. Sem Teoria da Informação e sem Semiótica ninguém terá compreensão do fenômeno comunicacional”.



Numa atitude incomum em textos acadêmicos, Pignatari emprega, em diferentes momentos de Informação, Linguagem, Comunicação, o recurso do humor para exemplificar ou fixar conceitos – o que denomina de ‘anedota exemplar’:

 

O significado é uma relação entre o interpretante do emissor e o interpretante do receptor; é uma função dos respectivos “repertórios”, confrontados na prática efetiva dos signos. A seguinte historieta ilustra o fenômeno: Um garoto recém-alfabetizado costumava passar, em companhia da irmã, já ginasiana, em frente a um edifício onde se lia “Escola de Arte”. Intrigado, perguntou à irmã: “Escola de arte… que é isso”? E a irmã: “Escola de arte… onde se ensina arte”. E ele: “Puxa!… Deve ser uma bagunça!”. Para ele, “arte” significava “molecagem”, “peraltice”, de acordo com o repertório que lhe forneciam os ralhos da mãe (“Esse menino vive fazendo arte”).

Os pensamentos de McLuhan estão presentes neste livro no qual Pignatari desenvolve, especialmente, a máxima “o meio é a mensagem”: “Não importa saber o que a televisão está levando ao ar, se os seus programas são de alto ou baixo nível; é ela própria, enquanto veículo, que altera o comportamento, condicionando a percepção no sentido do envolvimento geral, da participação (‘Estar por dentro’– lema dos jovens de hoje), apesar da resistência das elites de formação literária, que gostariam de levar à televisão o que chama de ‘cultura’, impondo soporíferos programas lineares…”.

 

As inovações tecnológicas dos anos 60 – explicadas algumas vezes a partir de McLuhan ou a partir de Norbert Wiener, o fundador da Cibernética – são usadas para pensar a arte daquele período profundamente transformador, sustentando, por exemplo, que “o estudo das relações entre ciência e arte é, em boa parte, o estudo das relações entre as comunicações digitais e as comunicações analógicas”. Para Pignatari, o grande desenvolvimento das artes gráficas naquela etapa histórica se devia ao fato de ser uma arte de informação – “e informação entendida em termos da Teoria da Informação e da Comunicação, ou seja, basicamente em termos de signos e relações estatísticas entre signos e em termos de poder seletivo de uma fonte de sinais”.

A dicotomia entre cultura de elite e cultura de massa é outro tema recorrente. Tratando da música, ele defende que “a arte deve ser reintegrada à vida de todos os dias e não relegada a pseudo-santuários musicais onde uns poucos privilegiados vão buscar escape para supostas angústias metafísicas. É a revolta da segunda-feira contra o domingo”. A existência de distintos níveis de repertório justifica a explosão de um fenômeno como a banda Mamonas Assassinas, citada por Pignatari em um debate sobre o belo, realizado no teatro da PUC/SP, em 1996: “O palpite é que o gosto deve ser respeitado na conversa cotidiana. O mundo das convenções e da cultura não nos permite escapar sempre. Eliminar as grandes desigualdades sócio culturais é uma luta que não vai acabar nunca. Temos que aceitar sermos solidária e humildemente humanos e combater as injustiças”.

 

Suas colocações sobre o kitsch, no livro Informação, Linguagem, Comunicação, não soam de forma pejorativa, “pois a verdade é que a cultura popular é crítica em relação à cultura superior e o kitsché a sua vanguarda de choque”. O kitsché encarado como um fenômeno móvel que reflete aspectos da crise do artesanato fase à industrialização e ao mercado de consumo – “que pulveriza as próprias coisas por meio da obsolescência planejada, enquanto que a organização da produção e consumo em massa de processos culturais de alto nível se encontra ainda em estágio bastante rudimentar”.

 Ele sustenta, recorrendo a um conceito tantas vezes referido, que o kitsché a redução do repertório estético vigente nas camadas superiores da cultura, já que o que costumamos chamar de ‘belo’ só pode ser caracterizado como tal dentro de padrões estéticos previamente codificados. “… o kitsché resultado da tradução de um código mais amplo para um código mais reduzido – e para um auditório mais largo (a redução do repertório implica a ampliação da audiência, e vice-versa). Segue-se que a visão do kitsch como ‘pseudoarte’ é uma visão das camadas superiores da cultura”.

 

Na consolidação da cultura de massa, para Pignatari, as camadas com menor repertório vão impondo sua cultura à intelligentsia – pelo consumo e pela comunicação: “A formação da cultura de massa, através do gradativo desenvolvimento de sua própria capacidade de escolha, corresponde à formação da nova qualidade (nada a ver com durabilidade) dos produtos fabricados em série e em massa. É neste contexto que o designer deve inserir sua problemática mutável e seu trabalho. E não na balela de ‘levar a cultura às massas’”. Mesmo porque, para o autor, “quando uma forma ou gênero da cultura de massa entra em declínio, ela tende a se transforma em ‘arte’ nas camadas superiores”. E cita que isso ocorreu com a fotografia, depois do aparecimento do cinema e com a história em quadrinhos, depois do advento da televisão.

Um dos últimos textos de Pignatari no âmbito da comunicação foi Interpretante, ideologia, poder, publicado no livro O Olhar à deriva: mídia, significação e cultura (2004),organizado pelos professores Kati Caetano e Eduardo Peñuela. O volume reunia contribuições de docentes da UTP e, durante meses, ficou paralisado à espera do capítulo que deveria ser escrito por Pignatari. “Depois de muita insistência, ele entregou uma curta reflexão, nos obrigando a alterar o planejamento do livro. Creio que, mais para o final da vida, o Décio voltou às raízes: seu negócio era a literatura e a arte, não a academia”, diz Kati Caetano.

 

Neste texto, aos postulados de Pierce reaparecem de maneira enfática, demonstrando que a fidelidade ao autor se manteve inalterada:

 

Pierce diz que “montou a teoria de uma concepção”, ou seja, a visada racional de uma palavra ou outra expressão, reside exclusivamente em sua concebível relação com a conduta da vida; dessa forma, já que obviamente nada que não possa resultar da experimentação pode ter qualquer relação direta com a conduta de vida, se se puder definir com precisão todos os fenômenos experimentais possíveis que podem ser afirmados ou negados na implicação de um conceito, ter-se-á a completa definição do conceito – e ai não há absolutamente nada mais do que isso (2004, p.296).

O texto exemplifica a capacidade sempre presente em Pignatari de relacionar autores e correntes de pensamento. Em quatro páginas ele cita Aristóteles, Hegel, Marx, Jakobson, Heidegger, Oswald de Andrade, o pensamento ocidental e o oriental (colocando em relevo as noções de caminho e de tao – para o Ocidente o caminho é o percurso para alcançar a meta; para o Oriente o caminho é por si: ele é a própria meta). E sustenta que “a função poética é o caminho e ponte do verbal para o não verbal, do símbolo para o ícone, onde se exerce a terceira de sua[de Pierce] chamada proposições cotárias (do latim cos-cotis = pedra de amolar), criada por ele, a abdução, o método quase lógico da heurística, vulgarmente chamada intuição (as duas outras proposições cotárias são a indução e a dedução). Isso implica dizer que o mundo da invenção e da descoberta é fontanamente (extraído de fonte este advérbio) icônico. A iconicidade sígnica não é senão o estágio inicial do pensamento abdutivo do processo do pensamento evolutivo”.

 

         Em maio de 2007, Pignatari concedeu entrevista à revista Interin, da Universidade Tuiuti e falou sobre o projeto de pesquisa ‘Cibermídia, cibermassa’, que desenvolvia na ocasião. Fazendo uma alusão à popular Lei de Murphy (segundo a qual o lado negativo tenderá a prevalecer no desfecho de um evento), Pignatari formuloua Primeira Lei de Comunicação Globalizada – a saber: “A uma cibermassa mercadológica corresponde uma cibermidia. E vice-versa: A uma Cibermidia tende a corresponder uma cibermassa. Ou seja: as novas tecnologias surgem e se aproximam para atender e suscitar a expansão do mercado de usuários que, por sua vez, ciberneticamente, suscitam o surgimento e a expansão das novas tecnologias midiáticas”.



(Extraído de Elza A. de Oliveira Filha – Universidade Tecnológica Federal do Paraná em http://portal.metodista.br/mutirao-do-brasileirismo/cartografia/verbetes/america-do-sul/decio-pignatari)

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