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Poemas de Marcelo Mourão

Donos de construções impactantes e precisas, os poemas de Marcelo revelam a maestria de quem conhece a fundo a literatura e sabe dar forma ao Canto. Um dos quatro do POLEM, encontro de poetas no Leme, Mourão promoveu encontros com a poesia que frutificaram. Claro, se a Musa lhe foi generosa, a sorte dele é toda nossa. 

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CAVERNA PÓS-MODERNA 

Agora, imagina, Glauco, os homens em moradas muito belas  

— numa época vista e tida como, de todas, a mais “moderna” —  

bem diferentes de como as nossas velhas residências eram.  

Imagina esses homens, no interior desses seus lindos lares,  

soltos, mas cercados por muros e grades por todos os lados,  

saindo só quando podem, devem ou não estão acuados.  

 

Imagina-os todos prisioneiros muito mais em si mesmos  

do que nessa cela que eles costumam chamar de abrigo ou casa.  

Veja-os caladoscom olhos vidrados em elétricas telas,  

cativos em suas mentes, sem correntes nas mãos e nas pernas.  

Eles pouco conversam, se olham, se ouvem ou até se percebem:  

não há mais tempo nem mesmo para aquilo que lhes interessa. 

 

Nessas mesmas telas, só sombras, sobras, fragmentos da vida,  

e não a gigante e real dimensão que é estar vivo nela.  

Pedaços de gente, de sonhos, de planos, de vozes, de ideias  

pululam e mesclam-se; como fantasmas errantes se alternam  

à procura de atenção, numa fila de espera, e vociferam 

nessa bacanal — ou baile de máscaras — onde tudo é festa.  

 

Imagina, Glauco, esses homens com essas telas a sós falando,  

por todos os dias de todos os meses de todos os anos,  

procurando por ver a si mesmos e também os outros homens,  

mas as janelas elétricas, que nada escondem, nem respondem,  

ligadas, são luzes que não iluminam o que há defronte a elas,  

desligadas, são espelhos mostrando uma cara cheia de fomes.

“Quando o POLEM começou, no meio da rua, ali aos pés da Pedra do Leme, em junho de 2008, éramos quatro os artistas reunidos: Eu, Eduardo Tornaghi, José Henrique Calazans e Antônio Gutman. Após um tempo juntos, com cada qual assumindo o seu espaço no grupo e se colocando no que sabia fazer de melhor, percebia-se, porém, que eu e Eduardo acabamos por ter um peso maior na concepção, na produção e na apresentação do evento. Só que as minhas ideias sobre como conduzir o sarau eram do tipo X e as do Eduardo, do tipo Y. A ponto de, certa vez, ele mesmo me confessar que achava que estávamos fazendo dois saraus em um só. Conclusão disso: em fins de 2010, cada qual, artisticamente, seguiu para um lado e o que eu chamo de “Movimento da Pedra” acabou por gerar dois filhotes: o POLEM e a Pelada Poética, que até hoje acontece lá, no quiosque Estrela de Luz, no posto 1, pertinho da velha Pedra do Leme. E o POLEM foi parar na Lapa, no Bistrô Multifoco, nas segundas ou terceiras quintas-feiras de cada mês.”
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O OLHO DE FERRO 

 

                                               para Michel Foucault e George Orwell 

 

Feito um farol, porém desprovido de lume e soturno,  

segue o olho da máquina sem piscar nem um segundo.  

O olho me olha e olha tudo mais à sua volta  

sempre com um olhar de pergunta, nunca de resposta.  

 

Feito um deus, que tudo escuta, tudo sabe e tudo vê,  

segue o olho mecânico a nos enquadrar numa TV.   

Esse mesmo olho oco, que escaneia corpos e rostos,  

 jamais irá hackear o que há na alma do seu oposto.  

 

Feito um cão de guarda, ou um juiz furioso e sem dó,  

segue o olho de ferro a vigiar tudo ao seu redor,  

numa fome de fera que tudo decifra e devora.  

 

E, assim, olhos espreitam, surgem, dão botes feito cobras.  

E, assim, mil olhos vão se clonando e, quanto mais, melhor.  

E assim caminha a humanidade: acompanhada e só.  

NÁUFRAGO 

   para Ferreira Gullar 

 

Hoje o verso 

não conta 

nem canta 

é talvez certo 

que seja seta 

ou espinha presa 

aqui na garganta 

 

Hoje a palavra 

não corre 

nem cansa 

talvez algum garrote 

pôs minha voz na tranca 

impedindo-a de vir cá fora 

silenciada até segunda ordem 

 

Hoje o poema 

não almoça 

nem janta 

sequer fala de amor fé 

ou qualquer outra esperança 

Hoje o poeta só bebe 

a secura de suas lembranças 

 

O poema paira perdido no vento 

às vezes morno às vezes forte 

às vezes porto às vezes morte 

às vezes renascido deste corte 

Só que hoje meu silêncio é bote 

e estou isolado no mar 

levado pela própria sorte 

A SAGUMANA NO SOLO DE GAIA 

O bichumano subiu no telhado. 

Tem medo de cobra e ataque de rato, 

da ave agourenta que pelo céu passa 

e até de si mesmo: réu e comparsa, 

vitimalgoz de sua própria desgraça. 

 

O cegumano rasgou seus contratos. 

Não enxerga leis, regras e cláusulas. 

Fez sua fome não caber mais no prato. 

Mesclou Deus e Darwin numa lógica crápula: 

o paraíso é dos ricos de cada raça. 

 

O ser engano ergueu o seu reinado. 

Inventou a guerra, sujou mares e serras, 

prostituiu todos os seus bens sagrados. 

Seu destino é devorar pedras e pérolas, 

sem notar a diferença que há entre elas. 

A PARÁBOLA DO ILUMINADO

Vivia na escuridão. 

Encontrou uma vela: 

que grande emoção! 

Anos e anos na cela. 

Custou a se acostumar 

com luz, cor e som. 

Mas aí, depois da vela, 

achou uma lanterna. 

Nem se lembrava mais 

dos tempos de caverna. 

Mas a vida sempre voa 

e até a própria lanterna 

deixou de ser tão boa. 

Buscou então um farol. 

Depois desejou a lua, 

as estrelas, os cometas. 

E, por fim, quis o sol, 

para colocá-lo inteiro 

à sua disposição. 

Brincou de deus e diabo 

e ficou cego com  

tanta iluminação. 

Mal sabia o “iluminado” 

que a tristeza da escada 

é sonhar céu e acordar chão. 

marcelo-mourão-foto-cacau-leal-oqv5cpzladhc5qajf6z54j87w0rqaboht7b2ntujk8 Poemas de Marcelo Mourão Contemporâneos Slam

Marcelo Mourão é professor graduado em História e Letras (Língua Portuguesa e Literatura), pós-graduado em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estácio de Sá (Unesa) e em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2020, tornou-se mestre em Literatura Brasileira, pela UERJ. É também poeta, escritor, pesquisador, crítico literário e produtor cultural. É o criador, produtor e apresentador do sarau POLEM, iniciado em 2008 no Leme (RJ). É, desde 2019, o diretor de comunicação da União Brasileira de Escritores (UBE). Há textos seus publicados em várias antologias, periódicos literários, sites e revistas acadêmicas, do Rio e de outros estados brasileiros. Em 2018, organizou a coletânea comemorativa POLEM 10 anos, lançada pela Ventura editora. Possui quatro livros solo editados: O diário do camaleão, poesia (2009); Temas em literaturas de língua portuguesa: os diferentes olhares, crítica literária (2015); Máquina mundi, poesia (2016); e Rotas e rostos: questões de literatura brasileira, crítica literária (2019). Contato: polem.rio@gmail.com