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Portinari: o pintor do povo

O Google Arts & Culture organiza a universalização de Portinari, sua vida e obra.

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A coleção conta com mais de 5 mil obras e 15 mil cartas e documentos do artista, que é o primeiro brasileiro a ter uma retrospectiva na plataforma. A retrospectiva foi intitulada: “Portinari: O pintor do povo”.
 
A organização do acervo só foi possível porque, em 1979, o filho do artista, João Portinari, fundou o Projeto Portinari. Por mais de três décadas, a iniciativa identificou, catalogou e fotografou toda a coleção de obras de arte de Portinari. As 5 mil produções do artista foram cruzadas com 25 mil documentos, incluindo entrevistas, cartas e clippings de jornais.  
 
Devido a este projeto foram desenvolvidos e utilizados métodos que incluem tecnologia de ponta no escaneamento e análise das obras. 

"As obras de meu pai são uma carta ao povo brasileiro. Mais do que cores e formas são uma carta contra a injustiça social", pontuou.

O filho único de Cândido Portinari, João Cândido Portinari, acompanhou o processo desde o início. Durante a cerimônia de lançamento dos arquivos, Portinari disse achar paradoxal o fato do pai ser o pintor do povo e 95% de seu acervo ser particular. Para ele, a iniciativa do Google entrega novamente esta ‘carta ao povo’. 
 
Todos os materiais estão em alta resolução, o que permite ao internauta conhecer detalhes de 10 quadros e visualizar os diversos detalhes da obra num super zoom com ajuda da Art Camera. Entre as pinturas capturadas nesse formato, estão obras emblemáticas como Mestiço (1934), Lavrador de Café (1934) e Café (1935).  

Além das obras foram disponibilizados documentos digitalizados em alta resolução; incluindo fotos e cartas transcritas. A coleção “Portinari: O Pintor do Povo” pode ser acessada neste link e o acesso é gratuito. 

 Dividida em 20 exposições, ela tem apresentações que dão mais detalhes sobre a vida do artista e ferramentas que permitem explorar suas obras por ordem cronológica ou pela cor predominante em cada pintura. 
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Leia na íntegra uma das cartas de Graciliano para Portinari

Caríssimo Portinari: 

 

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram. 
O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza. 
Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece? Veja como os nossos ricaços em geral são burros. 
Julgo naturalmente que seria bom enforcá-los, mas se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para tal sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto não temos arte. 
E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraços para você e para Maria. 
Graciliano 

Portinari ficou famoso por seus murais, e uma criação notável foi sua colaboração com Oscar Niemeyer, arquiteto modernista mais importante do Brasil. A Igreja de São Francisco de Assis, projetada por Niemeyer, fazia parte de um projeto urbano em Belo Horizonte, Brasil. O arquiteto pediu que Portinari pintasse um mural atrás do altar.

Na finalização da obra, em 1943, o arcebispo Cabral se opôs à estrutura por razões estéticas, declarando: “O hangar de Niemeyer [parece] mais o abrigo de bombas do diabo […] com um Cristo emaciado olhando num enorme afresco do pintor Candido Portinari”. Ele alegou que a obra era “inadequada para propósitos religiosos” e ela só foi consagrada 16 anos depois. Em 1959, o arcebispo auxiliar João Rezende Costa achou que a construção tinha “grande importância artística e uma atmosfera espiritual”, e ela finalmente foi consagrada.

 Durante a vida, Portinari foi um pintor prolífico, juntando mais de 5 mil obras de arte que vão de pequenos esboços a grandes murais em escala, embora apenas um pequeno número de suas obras tenha sido exposto enquanto ele era vivo. 

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