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Um deus foragido olha do cimo da destruição

Um poema de Wanda Monteiro constante na coletânea Antifascistas: Contos, crônicas e poemas de resistência, recente lançamento da editora mondrongo, como uma resposta literária ao ódio que tomou de assalto o cotidiano do país.

a-wanda-monteiro-e1592072831538 Um deus foragido olha do cimo da destruição Livros

Um deus foragido olha do cimo da destruição

I

 

Um círio infindo de punhos acesos

coturnos raivosos em marcha

um rebanho desembesta em fúria e a esmo

uma revoada de abutres sobre um campo

coalhado de ossos

 

À margem esquerda

olhos atônitos nem sequer esboçam mínima reação

nem sequer vicejam a luta e sucumbem à opressão

toda vociferação converte-se em murmúrio

imprecação e silêncio

No abrasar das horas o tempo reflui num leito de açoites

No pouso do medo toda réstia de luz coabita o breu

o medo cai como pedra no fundo de cada dia

e a desesperança cintila à boca de cada noite

O poder no cio fecha as janelas de um passado fincado em irremovível paisagem

 

— o poder tem os olhos de uma noite sem fim

 

A violência é a ordem do dia — o veneno

que entorpece e contagia

abre fendas radioativas onde corre a larva do ódio

 

Algo inominável deflagra a combustão das horas

interdita o tempo

o tempo partido

o país partido

a cidade partida

o humano partido ao meio

 

Toda gente se extingue para além das casas

e dos muros

a sobrevida pulsa em ilhas dentro de ilhas

Sob a mira do fuzil

a carne negra

a carne índia

a cor vermelha

 

A descrença é a ferida aberta

o cancro incurável

a segregação é a flor sanguínea de verbo coagulado e toda esperança desfolha aos ventos que chicoteiam brancas bandeiras

 

A intolerância forja a gangrena

seus raios de dor são o traçado que revela a geometria do terror

 

No átrio espelhado de ocasos

a besta de esporas e chifres faz a festa

dança — gargalha e vomita sobre a clareira côncava que engole os cânones dos justos

 

Nesse reino escuro o frio arde e queima ao estio do sol

vergam-se os girassóis

e gárgulas saem de seus buracos de sangue

para lamber as feridas da paz

 

Mulheres e homens que teimam

reinar em si a íntima liberdade de pensar

decretam o autoexílio

todas ilhadas

todos ilhados

ilhados e tristes

terrivelmente tristes

 

Um deus foragido olha do cimo da destruição

contempla o ataúde da fé

e chora sobre as ruínas do humano

em seus gestos finais de autofagia

a sobrehumana desordem de sentidos precede o golpe fatal:

a morte da liberdade.

II

 

São tensões de face à face

mãos vestidas de esporas _ dedos em riste

carnívoros gestos na exatidão dos golpes

rosnam sua cotidiana covardia

no estio da luz a orfandade do sol

sombras adentram pulmões

a melancolia reflui nas veias dos que tentam resistir

são implacáveis as patas do fascismo

 

_ a matilha avança passo a passo

 

os dias nascem rarefeitos e sequer sustentam

a combustão no peito de quem sonha

as noites levantam muros de silêncio

não há sono _ há vigília acesa respira 

o éter gélido de fantasmas redivivos

 

 _ a matilha avança passo a passo

 

a história tem suas raízes arrancadas e abrasadas

na fogueira de negra crista onde sua morte é decretada

nada mais assoma a memória das estações

os rebanhos gozam ao respirar o enxofre exalado por pastores

que proclamam a negação de lutas

e sagas na amplidão do humano

 

_ a matilha avança passo a passo

 

nenhum deus se rebela

todos dormem seu sono lisérgico de abandono e desistência

a besta no cio sai dos confins do tempo e avança suas garras sobre a paz

 

_ a matilha chega

alinha-se em flancos

os rios secam _ a vida deixa de ser corrente profunda e caudalosa

na paisagem mortal as margens são áridas o chão é ocre

tudo é  sequioso

o mal rasteja sobre leitos cobertos de lama

de lodo

e sangue

 

III

 

 

Nesses dias em que tudo ri e rosna

nessas noites em que tudo sangra e cala

não há como digerir o fruto dos ocasos

são espinhos cravados na garganta

a latejar o pus da voz perdida

Não há como proferir a palavra medo

sem rasgar o céu

sem rasgar o chão

esse chão adoecido de paralisia

e desmotivo

esse chão

onde tudo se alastra ao agouro

das sombras

esse chão onde tudo se corrói

ao éter dos desafetos

esse chão

onde toda esperança hiberna em pálpebras

fechadas de olhos cegos de futuro

esse chão

fendido na contrafação das forças 

coberto de feridas

órfão de paz

 

O medo não acende a vida

o medo acende a morte

 

A morte é  um enorme silêncio

um canto branco

de mal intencionada lira

que atravessa a vida

deixando-a em pedaços

 

 

Wanda Monteiro

 

Wanda Monteiro, advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas, em Alenquer, Pará, Brasil. Colabora com vários projetos de incentivo à leitura de seu país, seus textos poéticos são publicados em importantes revistas literárias_ impressas e digitais_ veiculadas em várias regiões do pais, como Mallamargem, Revista Gueto, Acrobata, Diversos &Afins, Relevo, Lavoura, Zona da Palavra, Vício Velho, Ruídos, LITERATURA BR, LITERATURA &Fechadura, DesEnredos, InComunidades (Lisboa) . Tem seus poemas publicados nas antologias: Senhoras Obscenas; Proyecto Sur Brasil, Sarau da Paulista; Mulherio de Letras/Lisboa e na primeira e histórica publicação impressa da Revista Literária GUETO. Obras publicadas: O BEIJO DA CHUVA, 2008, Ed Amazônia; ANVERSO, 2011, Ed Amazônia; DUAS MULHERES ENTARDECENDO, 2015, Ed TEMPO _ em parceria com a escritora Maria Helena Latinni; AQUATEMPO, 2016, Ed Literacidade; A LITURGIA DO TEMPO E OUTROS SILÊNCIOS , 2019, Ed Patuá, AQUATEMPO AQUATIEMPO, Editora Patuá, 2020. Participou nesse ano de 2020 de duas publicações com textos poéticos : A coletâneas em Livro manifesto antifascista chamada Ato Poético, editora Oficina, organizado por Márcia Tiburi e Luís Maffei e o segunda, a coletânea ANTIFASCISTAS, contos, crônicas, poemas de resistência, organizada por Leonardo Valente e Carol Proner, editora Mondrongo.

Uma resposta literária ao ódio que tomou de assalto o cotidiano do país, e que preocupa também por virar tendência em outras partes do mundo. Um livro que se propõe a ser mais um instrumento na futura disputa pela narrativa e pelos afetos, para que as atrocidades de hoje não se repitam no futuro. Não se trata de uma obra que aborda o fascismo no sentido acadêmico/histórico estrito, o fascismo que é alvo de oposição e combate pelas ideias, argumentos, arte e ficção nessas páginas é movimento marcado por várias semelhanças com o fenômeno histórico de mesmo nome, mas também por características peculiares e próprias de seu tempo. O antifascismo, contudo, tanto aquele que combateu os movimentos do início do século XX, quanto o que se opõe aos tempos sombrios do Capitalismo pós-democrático é, em essência, uma só coisa: a antítese do ódio de seu tempo. Esta é uma obra de antifascistas dos nossos dias.

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A MONDRONGO LIVROS

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A Mondrongo é uma editora baiana que publica literatura brasileira de excelência. Fundada em 2011 pelo escritor Gustavo Felicíssimo como um braço editorial do Teatro Popular de Ilhéus, atualmente está em vôo solo. Publica poesia, prosa, estudos acadêmicos e livros de arte.