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"diariologismos", novo livro de Paulo Emílio Azevedo ​

Narrado na forma de diário, o novo livro de Paulo Emílio costura suas narrativas e referências para acessar um fluxo próprio, semiconfessional. Prefaciado por Paula Beatriz Albuquerque, o livro será disponibilizado para download gratuitamente a partir de 11 de junho de 2020. 

O gênero diário dá matiz a narrativa literária do 17° livro de Paulo Emílio Azevedo  

Com data de lançamento (on line) para 11 de junho, o escritor Paulo Emílio Azevedo recorre a uma prática que parece estar sendo abandonada ou, ao menos, relativizada mediante o avanço da era digital – o diário.    

Fazendo uso da poética (que se dá tanto na estrutura de poema como na forma de textos prosaicos), o autor traça duas vias de acesso aos escritos nas 62 páginas do livro: primeiramente, monta ou desmonta uma espécie de caleidoscópio de si cuja profusão de imagens constrói inúmeras figuras e rascunhos; em segundo estágio convida ao leitor que tal concepção possa ser um despiste – daí o sufixo ´logismos´. É nesse interstício que a convidada ao prefácio nos dá outras dicas sobre a narrativa – para Paula Albuquerque, Paulo Emílio ensaia quiçá uma peça de teatro cujo cenário é o devir e o roteiro; ficicional. O suspense ronda os arames das folhas e suas linhas sem pautas em Diariologismos (Fundação PAz), afinal Paulo que assina para o gênero poesia “PAz” é oriundo do campo das artes cênicas, mas também é antropólogo. Pode assim, estar interpretando sua própria biografia nos princípios da auto etnografia (através de suas notas secretas) e ou estar brincando de criar novas personagens. Os rastros estão disponíveis. 

Confira abaixo o prefácio na íntegra, assinado por Paula Beatriz Albuquerque

diariologismos: um estudo do devir

Diário seria uma construção de memórias, um deslugar, um quase instante que se perdeu em alguma passagem do tempo ou em alguma desconstrução do espaço. As memórias  
existem, talvez não dentro de nós, mas na nossa ausência, nos vestígios do hoje ou da infância, às vezes tão longínqua que não encontram caminhos nas nossas lembranças: fazem parte do Todo, poeiras cósmicas que guardam e compõem a vida inteira. A idade do universo também é o plasma da nossa memória.  
 
O autor começa com uma apresentação. Acredite, trata-se de um monólogo e a peça já começou.  Confessa a sua dor, as curvas do caminho – e engraçado é que uma curva é uma bifurcação, o que endossa esta modesta hipótese de que não se trata de um diário, mas de uma peça de teatro que ficcionaliza um diário. O autor ele-mesmo foi transformado em personagem do próprio livro que escreveu. No trecho que selecionei e coloquei aqui, nota-se uma ambiguidade do autor que se sabe personagem e que na condição de personagem não quer saber de sua instância enquanto autor. Assim, vemos o seguinte trecho:  
 
“Caso me perguntem se um dia vou querer ler, acho que não; exceto, se alguém houver tal gentileza a balbuciar – de preferência, sem que me diga o nome do autor”.  
 
Quando vivemos imersos na materialidade dos acontecimentos a memória não existe. O que temos são os nossos sentidos e a nossa sensibilidade bruta atravessando as  
situações, o cotidiano, o tédio, as dificuldades, as dúvidas. Cada movimento, cada singelo  
acontecimento é um quadro imaterial moldado nas nossas impressões. Sendo assim, escrevê-las é uma reescritura desse quadro, agora sem moldura algo que delimitaria a divisãodo real e do fictício. 
 
No entanto, observe que não existe em Diariologismo uma entrada de registro temporal e espacial “Rio de Janeiro, 5 de dezembro de dois mil e tal”. Aqui temos quadros de atos teatrais. Repito: beira entre a consciência de ser autor e a consciência que existe em si mesmo enquanto personagens; repartem-se entre ele o que ele foi e o vir-a-ser 
ausência e ficção. Ele é o cinzeiro vazio, a embriaguez, o boteco, Bach, o peixe, a prostituta, a morte, o vigarista, o vento, Zuenir, Woody Allen, o pai, a mãe, o fusca cinza 75, o retrovisor do fusca cinza 75. Boechat ficccionalizado é parte dessa nuvem cósmica de personagens que é o autor e que se desprende dele, em pleno devir dilacerante – e o Chopin é o som dos estilhaços, quando nos dilaceramos de nós mesmos.  
 
O que me impressionou em diariologismos, no nível da forma, foi a falta de estrutura de uma escrita de diário e a falta de uma configuração de uma peça teatral. Esse é o movimento do livro, quase uma performance movida por ausências que busca sentidos, tanto quanto eu, ela mesma ou você. Poemas são relatos capazes de inventar um novo mundo à parte da existência. Temos indicadores, mas são vestígios, apenas. No conteúdo, trazem as angústias de nossos passos viventes para além dos muros cotidianos; trazem as buscas de nós mesmos dentro de nossas vidas. A dilaceração do livro também é fictícia, temos aqui um todo coeso, da mesma forma como tentamos nos costurar. 

*em paralelo haverá live do autor comentando a obra e recitando partes da mesma. Recomenda-se, primeiramente, baixar o livro e, em seguida participar da live no Instagram @arteantropologia

Clique na imagem para acessar a página de download

Trecho do Livro

“Desobediente, por excelência observo o breu como potência ou hei de pintar um arco-íris em preto e branco – daltônicos são daltônicos. Revejo nessas esquinas sonâmbulas o através e o entre, o mendigo e o banco (e o Banco), o papelão, a celulose e a BMW, a célula, o vírus na maçaneta e Marcela brincando – Marcela é um nome com antítese poética: vocês já viram alguma vez o mar sendo preso no cárcere? A cidade é terra e aterro, é selva e é salve. Na porta de casa também revisitei algumas alergias. Costumo brincar que alergias são alegrias entupidas. Parte do meu percurso se expõe para tentar aceitar quando e aonde virei na avenida incerta – repito: retas, eu não fiz. Todo mundo é curva, todo mundo é gente curva e sem curva só resta a morte. Arrisco um palpite: talvez tenha conhecido surtos, muitos surtos que couberam em um dia apenas e lá, no delírio, dediquei minhas maiores energias ao que não pode ser mudado. Quantos não(s) não entendi em suas mais doces covardias? Com quantos abraços ou ternuras poderei contar para me contar uma história na hora de dormir? O que me move? O que me pára?”  

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Paulo Emílio Azevedo – PAzProfessor, Pós Doutor em Políticas Sociais e Doutor em Ciências Sociais com especialização em Antropologia do Corpo e Cartografia da Palavra. Escritor, criador no campo das artes cênicas e consultor na área de Educação e Cultura, cuja pesquisa tem por objetivo refletir sobre outras formas de comunicação aos diversos protagonismos e redes de sociabilidade na sociedade contemporânea. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) através do Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura. Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da palavra falada e performance poética. Em 2018 representou o país na Journée d’Etudes Cultures, arts et littératures périphériques dans les Amériques: une approche transnationale de la production, la circulation et la réception em Lyon (França). Tem dezessete livros escritos, sendo três bilíngües. Coordena a Rede Cia Gente e orienta conteúdos para Fundação PAz - plataforma que registra e protege sua produção intelectual. É pai de Hiago; sua obra-prima