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“Um Esboço”, texto de Juliana Brito

A cada box que passavam sentia cheiros diferentes que se somavam aos demais que estavam no ar. Essa exuberância de aromas não deveria ser percebida em tal intensidade pelos frequentadores assíduos da feira. Não importa o lugar do mundo, em todos eles, a feira é sempre um reino de diversidade, texturas, cheiros, sabores, cores, utilidades, preços, origens, pessoas etc., tem de tudo um pouco, basta estar atento e olhar em volta. Ângela não costumava frequentar aquele espaço, por isso, a novidade pulsante do lugar a atingiu em todos os sentidos. Assim que entrou naquela atmosfera quase material, esqueceu-se um pouco dos pensamentos que a oprimiam há alguns meses. Tal foi seu encantamento, que por alguns instantes, chegou a fechar os olhos para melhor captar o vozerio, parecia o mundo antes de Babel. Bárbara tocou-lhe o ombro, convocando-a a andar mais depressa. Precisavam chegar ao local dos utensílios e do artesanato e recolher objetos para a exposição.

Enquanto Bárbara perguntava o preço e a origem de determinadas peças, Ângela observava a pilha de alumínios em seus múltiplos formatos: copos, panelas, formas, assadeiras, caldeirões, machucadores de tempero e uma enorme bacia. Dentro desta havia muitas outras em tamanhos decrescentes, uma dentro da outra, numa infinidade de estar contido que a intrigava. Um pouco acima das bacias, penduradas num gancho, estavam dispostas algumas buchas vegetais e pedras pomes. Ângela olhou saudosa para aquela combinação tão estranha de texturas: o alumínio brilhante e frio da bacia, a rugosidade e aspereza da bucha e a incrível porosidade da pedra. De repente sentiu um cheiro que não estava ali há poucos segundos, era cheiro de cânfora e água morna, a mesma água que costumava envolvê-la no banho de bacia quando era menina, cujo único desejo era caber totalmente na banheira improvisada, mergulhar e ficar sentindo a temperatura da água em volta do seu corpo de criança. Ela costumava deixar a água sempre mais quente do que o recomendado por sua mãe, assim o líquido ancestral permaneceria aquecido por mais tempo. Ela já era grandinha, sobrava menina para fora da bacia-banheira-lago encantado. Permanecia ali, encolhida, sem pressa, no chão da cozinha, pois a casa não possuía banheiro. Havia uma privada do lado de fora, mas ela tinha medo de ir naquele lugar. A cozinha, quando a casa ficava vazia e silenciosa, era seu refúgio. “Ângela, Ângela, Ângela! Vamos! Já terminei. Mais tarde mando alguém pegar as coisas, não daremos conta do peso”. Ângela olhou em volta e, mecanicamente, voltou a andar. Bárbara segurou em sua mão, mas Ângela não estava à vontade. Não entendia o que havia de errado consigo. Assim que pode, foi escorregando a mão e devagar foi ficando para trás em meio à multidão. Ainda se sentia ligada ao Marcos, ele estava viajando, não tinham tido uma conversa, nem ela sabia o que dizer a ele, não sabia o que dizer a si mesma.

Quando conheceu Bárbara, essa logo se mostrou alguém tão interessante e decidida, que foi se afeiçoando, queria muito ter amigas. Não entendia como era difícil estabelecer amizades com outras meninas, e via com inveja a camaradagem dos meninos entre si. Os homens podiam sair juntos, fazer as coisas mais diversas sem supervisão, estavam sempre envolvidos em jogos e brincadeiras. Na infância, seus irmãos e amigos sumiam no mundo, caçavam passarinho, tomavam banho em lagoas, jogavam futebol, e quando dividiam o mesmo espaço no trabalho, estavam sempre contando piadas, gozando uns dos outros. O mundo para eles era mais livre e leve. As mulheres também faziam coisas juntas, porém, a mediação era sempre em volta de afazeres como cozinhar, tomar conta das crianças, arrumar a casa. Na escola tinha as panelinhas de meninas, elas falavam de namorados e queriam afirmar suas belezas em detrimento de outras. Os rapazes também faziam isso, de certa forma estavam o tempo todo se afirmando, mas ainda assim, eram privilegiados. Ângela percebeu desde cedo que cada um deveria ter o seu lugar, a sua turma. Para ela, julgando pelos livros que havia lido até então, e pelos sermões de domingo na igreja, os homens queriam sempre conquistar, e as mulheres precisavam estar sempre na defensiva. O feminino parecia ser reduzido a uma definição de objeto, utensílio, um troféu, facilmente descartável.

Marcos era um cara legal, eles se davam bem, dentro das convenções. No entanto, Ângela se sentia desconfortável quando ficavam a sós. Parecia que nesses instantes ela era reduzida apenas a corpo diante dele. Ela queria lhe contar coisas, fazer perguntas, dividir seus pensamentos, enquanto ele tinha pressa de corpo e sexo. Para não perder a sua companhia, ela se deixava tocar, e até tentava participar, mas, sentia falta de algo, algo muito caro e profundo, algo sem contorno que ela nem sabia ao certo que existia, apenas intuía.

A prosa de Juliana Brito

Bárbara foi entrando em sua vida, levando-a a vários lugares que ela não ousara ir antes. Com ela, podia fechar os olhos e fazer de conta que as duas eram meninos livres, brincando na rua até anoitecer, sem nenhuma interdição.  Não ousavam tomar banho peladas nas lagoas da região, como faziam os meninos, então, tomavam banho de piscina no clube, participavam do teatro da escola, iam ao cinema. Certa vez viajaram juntas, ficaram hospedadas na casa do tio de Bárbara. O quarto era nos fundos da casa, numa edícula. Elas haviam saído e beberam algumas cervejas na casa de um amigo do primo de Bárbara. Quando retornaram para casa, as duas foram tomar banho juntas como já tinham feito outras vezes na escola depois do esporte. Dessa vez estavam sozinhas e alegres, sozinhas e longe de casa. Bárbara pegou o sabonete e disse que ensaboaria as costas de Ângela, pedindo que esta fizesse o mesmo com ela. Bárbara passou lentamente o sabão, a água do chuveiro era forte e morna, tão gostoso para deixar a cabeça em baixo como numa cachoeira imaginária. O sabonete nas mãos de Bárbara deslizava devagar, atrás de Ângela a moça parecia fazer-lhe uma massagem nas costas, em gestos cada vez mais lentos. Mudou o itinerário das mãos, elas passaram a atingir a lateral do corpo de Ângela, até ir devagar atingindo a região debaixo dos seios. Como Ângela não emitiu nenhuma palavra ou movimento, a massagem continuou, a mão passou a percorrer-lhe cada vez mais próximos dos seios, até ir tateando-os devagar. Ângela sentia o relevo dos próprios seios, e nas mãos de Bárbara sentiu o bico, molhado e rijo. Deixou-se ficar assim, paralisada, na posição de quem recebe. A outra, sentindo-se autorizada, largou o sabonete e com as duas mãos e em pé, atrás da amiga, com seus próprios seios às suas costas, segurou com paixão os dois montes, justamente a parte do corpo que Ângela mais gostava em si mesma. Uma das mãos desceu até o ventre e assim permaneceram por algum tempo, até que a televisão sendo ligada na casa vizinha, as despertou. Ângela saiu do chuveiro e se enxugou rapidamente, não sabia o que pensar ou sentir. Foram embora no ônibus das seis e não voltaram a ficar a sós por vários dias.

Bárbara era muito dinâmica e talentosa, fora escolhida para organizar a exposição de arte popular. Estava eufórica, comunicava a Ângela suas ideias em minúcias e solicitava sua ajuda. Em vários momentos, quando se despediam, dava-lhe um beijo roçando a sua boca. Não conversaram sobre o que estava acontecendo, parecia a Bárbara que tudo estava definido e acertado entre as duas, Ângela não conseguia esboçar nenhuma oposição ou consentimento, apenas seguia como fazia com sua relação com Marcos. Ele ainda não voltara, estava fora há três meses e iria ficar por outros três. 

Os stands da exposição estavam quase prontos, haveria também oficinas de pintura com o professor de Artes do colégio da capital. Quando foi comprar as tintas que seriam usadas nas aulas, Ângela encontrou com o irmão de Marcos, esse entregou-lhe um recado. O rapaz lhe pedia para enviar uma foto específica. Queria aquela que tiraram no dia do aniversário dele. A moça não se lembrou imediatamente ao que o namorado se referia. Somente ao chegar em casa e ao sentar-se na cama, com a caixa de fotografias sob o colo, recordou que tiraram aquele retrato exatamente no dia em que transaram pela primeira vez. Viu a si mesma, semivestida na cama, com o corpo de Marcos sobre o seu. Lembrou da pressa dele, dos beijos rápidos que pareciam não precisarem de respostas. Ela quase não se mexeu, como seu corpo arrepiava essa reação encorajava o rapaz a ir mais fundo nas carícias. Ele disse que gostava do cheiro dela. Ela nem mesmo sabia que tinha cheiro. Depois de tudo, Marcos não parava de falar sobre a viagem que faria em breve e do quanto iria aproveitar para aperfeiçoar o inglês e coisas do tipo. Passados quase um ano desse episódio, Ângela sentia a mesma persistente falta, sentimento parecido com aquele que ela tinha quando estava com Bárbara. O que estava faltando? Qual o problema dela? Ela gostava muito da companhia dos dois, era carente de amizade, de contato, de uma interlocução. “O que está acontecendo comigo? Tenho que me definir? Por quê? O que eu estou procurando?” Tentou se imaginar andando de mãos dadas livremente com Bárbara, beijando-se. Tentou imaginar o retorno de Marcos, a recepção que ele esperava dela. Ângela não conhecia muitas pessoas, não tinha muita experiência de vida, começaria a faculdade no próximo semestre, não sabia se o curso escolhido era o mais apropriado, nem sequer sabia ao certo o que a fazia feliz. Dormiu encolhida como um bebê.

Era domingo, o irmão saíra para jogar futebol e voltara com três amigos, iriam passar o dia enfurnados no quarto, no videogame. Ele já estava quase se formando, mas não abandonava o hábito da infância de brincar com os amigos. Ouvia suas risadas, pareciam meninos. Pareciam ter tantas certezas sobre tudo. O irmão era tão objetivo em tudo o que fazia, parecia saber exatamente o que fazer da vida. Os pais estavam tão contentes com ele. O casamento com Joana fora marcado para quando terminasse a residência, antes disso, não deveria acontecer. Ângela levou um lanche no quarto para os rapazes e os viu tão à vontade, tão camaradas. Não havia nenhuma conotação sexual em seus abraços, em suas brincadeiras, nem mesmo quando se atracavam em lutas imaginárias. Por que quando eles estavam com mulheres suas ações tinham sempre que ter comportamentos sexuados? Por que será que não conseguiam ser tão amigos das suas namoradas como eram um dos outros? Por que ela e Bárbara não podiam ser apenas amigas? Por que será que para Marcos ela nunca poderia ser uma amiga? Por que precisamos nos definir desde sempre entre dois lados opostos e inconciliáveis? Quando foi guardar a bandeja na cozinha, viu sobre a pia, num copo com água, um pequeno maço de tempero, cheirou aquelas folhas tão perfumadas e se transportou para a feira, lugar de tanta diversidade e experiências, e chorou.

Na semana da exposição evitou encontrar-se com Bárbara, resolveu ser auxiliar na oficina de pintura. O professor pediu aos alunos que visitassem todos os stands da exposição, e que procurassem usar todos os sentidos. “Experimentem sem pressa as sensações, não percam tempo procurando compreender, sintam. Amanhã faremos o exercício de colocar na tela a impressão de vocês… Ângela, Ângela, Ângela, se mexa! Você também. Vá! Se não experimentar não poderá ajudar os alunos amanhã”. No resto da tarde, Ângela caminhou sozinha, entrando com seu passo vagaroso em cada sala, tocou, cheirou, ouviu, degustou, deixou-se ser pintada por um artesão. Em seu rosto surgiu uma bela borboleta. Riu maravilhada ao olhar-se no espelho e não se reconhecer. Ela era outra, crisálida de borboletas. 

No dia seguinte, o professor pediu a todos que fizessem algo na tela, recomendando-lhes apenas que não usassem contornos. Queria apenas esboços e como tal deveria ser inacabado, sem limitações nítidas, sem necessidades de categorizações. No final do dia, quando terminou a oficina, Ângela guardou o material e foi para casa. Passou por Bárbara e apenas acenou-lhe de longe. Tentou dormir, mas não conseguia se libertar do cheiro da tinta impregnado em suas narinas, havia passado muito tempo limpando os pincéis e usando o removedor cujo cheiro forte se impregnara profundamente nela, causando-lhe um grande desconforto. Mergulhou as mãos na pia do banheiro, ensaboou o quanto pode. Suas mãos continuavam com resquícios das tintas, como a lhe convidar a pintar o seu próprio quadro. Retirou o material da caixa que trouxera da exposição, resgatou alguns potes de tinta, um trapo para limpar o pincel, uma vasilha com água, e passou um tempo imóvel lembrando de si, menina tomando banho na bacia. A água já estava branca do sabão, mas ainda permanecia quente. Estava na cozinha da casa da infância, sentia um pouco de frio vindo em sua direção, abraçando aquela atmosfera de vapor. Era justamente esse frio que rondava ao seu lado que tornava tão gostosa a temperatura da água, o contraste era fascinante. Deixou-se ficar ali, tinha colocado na água uma pequena pedra de cânfora, a bucha e o sabonete encontravam-se totalmente submersos na água, e a menina, de forma mágica, alargou com as mãos os limites da bacia, esticou os pés, deitou-se, sentindo, sentindo, sentindo o mundo à sua volta, sentindo seu corpo no mundo, lembrando das várias meninas que trazia em si. A partir dessa lembrança, Ângela começou a pintar, tentou afastar da mente todos os contornos e limites que a restringiam, a tela lhe escutava, apreciava suas confidências, abraçava-lhe, dava respostas inusitadas, suscitava novas questões.

Pela manhã, a mãe veio chamá-la para o café. As duas iriam fazer as compras do mês. Enquanto, ainda sonâmbula, Ângela tentava se vestir, a mãe viu a tela no cavalete improvisado, ficou em silêncio por alguns instantes, abriu as cortinas para que o sol iluminasse a pintura, afastou-se, aproximou-se bem de perto, e finalmente perguntou para a filha: 

‒ O que é? 

‒ Ainda não sei.

‒ Entendo. Saiba que é lindo!



Juliana Brito 28/10/19

juliana-brito-escritora-1024x768 “Um Esboço”, texto de Juliana Brito Prosa e Poesia e Vice Versa

Juliana Brito foi professora da rede pública de ensino da Bahia por 17 anos. Graduada em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), coordena o Clube do Livro Um Dedim de Prosa e Poesia e escreve por necessidade existencial como forma de luta e resistência.