O senhor Bonilla e seus irmãos, conto de Marco Antonio Bin

Marco Antonio Bin é docente universitário, pesquisador e escritor, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Escreveu Histórias Invisíveis (contos, Horizonte, 2011) em coautoria com Mônica Nunes; A Paixão Inútil (contos, Patuá, 2019) e O Fragor Silencioso de cada Dia (contos, Penalux, 2020). Em preparo, O que aparentemente nos resta (crônicas, Kotter, a ser publicado em 2022).  



O senhor Bonilla e seus irmãos

Meus pais estão velhos. Faço esta constatação com duro pesar na alma, depois deste fim de semana, quando estive na casa deles, a dois dias de cavalgada, para comemorar o aniversário de meu pai, 95 anos. Estão firmes, porém frágeis. A grande casa aprofundou-me a impressão da delicadeza da vida, do fim que não está distante, e mais forte que isso, as impressões da vida que vivemos, em seus belos e dolorosos quadros, não mais vinculada ao presente. É como se tudo o que vivemos no passado, em família, fosse a visão de um simulacro, a enunciação confusa do que poderia ter sido e não foi. 

Desvelo com mais clareza – nas minhas reflexões e nas conversas com meus irmãos – o percurso em que as peças se juntaram poucas vezes para definir algo coletiva e sentimentalmente poderoso: estivemos em grande parte dessa caminhada muito à deriva, em uma sintonia abstrata, o que propiciou tanto distanciamento, tanto “não sei bem o que dizer”. Essa experiência não foi suficiente para produzir animosidade entre nós, mas certamente os anos forjaram um vazio que não pôde ser preenchido ao longo do convívio. 

O amor que subsiste não é artificial, mas extravasa de maneira complexa o improviso da edificação de nossa proximidade. Em certas ocasiões, ele emergiu copiado dos códigos de etiqueta ao estilo segundo império. Em outras, brotou com a força de uma coisa esquisita, marcada pelo não-vivido. Sempre soubemos tratá-lo de acordo com as circunstâncias, e isso, de um modo ou de outro, resultou no vazio, na carne de nossa precariedade relacional.

E assim é, o que vejo a cada vez que entro naquela grande casa é falta. Perdemos as melhores chances de criarmos uma felicidade conjunta. Cada um tratou de compor a sua felicidade coletiva com base na sobrevivência individual. Sobrevivemos assim, de alguma forma juntos, preservando o respeito, o carinho, as datas festivas – tudo dentro daquele almanaque conservador. O amor aí decorrente só poderia surgir como um exercício vago, estranho, com poucas brechas para sua significação mais genuína. 

Talvez quem tenha vivido com mais autenticidade os sentimentos coletivos de amor e carinho tenha sido Cordélia, minha irmã. Ela de algum modo ajudou a preservar o que nem mesmo ela sabia a fundo. Hoje, conversamos com muito carinho sobre todas essas faltas que visualizamos ao retomar as lembranças e encontramos uma forma de amor que nos apazigua. É verdade que com Ramón, meu irmão, a léguas de distância, essa prática é menos corriqueira, mas não temos dificuldades em “tê-lo” conosco. 

Quando esvaziamos o escritório de meu pai, há poucos anos, permanecemos lá, juntos, permeados por um intenso sentimento que nos parecia improvável. Enquanto revolvíamos o vazio daquelas caixas de documentos, aprendíamos a preencher com um sentimento acolhedor, muito próximo ao amor que desconhecemos ao longo da vida. 

É possível dizer que o mesmo ocorre quando nós, os filhos, nos juntamos a nossos pais. As faltas sentidas nos ajudam a conectar com as representações cultivadas por eles, e retomamos as pontes fragmentadas de suas ausências a partir de brincadeiras, de interpretações de fatos reais, mas sobretudo, penso eu, de nossos sonhos. Então fica assim, nós filhos os encontramos fragilizados, ainda com boa saúde, e reconstruímos o significado da família. Do presente para o passado e daí para o que resta do futuro. Já não se trata de alimentar a beleza do que foi, porque não foi, mas de exercitar o amor com as peças à mão. 

Uma tarefa aparentemente difícil, mas que no fundo é tão suave quanto a brisa noturna de verão. Quanto retomo com minha irmã, diante de uma boa garrafa de vinho ao final da noite, as histórias compartilhadas, é como se as vivêssemos pela primeira vez de modo autêntico. A dureza dos fatos e as peripécias do imaginário nos redime e realiza a conexão com o que está por vir, com menos ruído. 

Ao final das contas, quando tudo estiver prestes a terminar, uma dor lancinante nos atravessará e desabaremos em um choro curto, intenso, vívido, profundo, como jamais se pronunciou. Não haverá dinheiro nem posses que amenizará o vazio sentido, deslocado como fardo do presente para o passado consolidado. E colocaremos em dia o amor faltante de tantos anos.

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O fragor silencioso de cada dia e outros relatos oferece ao leitor histórias inspiradas nos movimentos jazzísticos das Meditations, de John Coltrane, de cuja leitura recolhem-se gestos largos da observação sem pressa, sutilezas nas ações conflitivas e o tempo bondoso que por vezes abona senhores, senhoras, professores, artistas circenses, trabalhadores simples constelando estes contos curtos emoldurados por belas epígrafes. Compaixão, Consequências e Serenidade nomeiam as partes do volume, lidas em qualquer ordem sem prejuízo.

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